terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O problema pessoal do sentido da vida - parte II - por Desidério Murcho

O problema pessoal do sentido da vida (parte II)
Desidério Murcho
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O problema intuitivo do sentido da vida é um problema pessoal. Não é um problema parecido com a questão de saber se há vida noutros planetas, ou com a questão de saber qual é a composição da atmosfera de Júpiter. O que se procura não é realmente uma resposta ao problema do sentido da vida humana em geral, mas sim ao problema do sentido da minha vida. É o tipo de inquietação que me assaltava quando eu tinha 15 anos, e que inquieta muitos jovens; ou que inquieta pessoas que enfrentam problemas difíceis na sua vida de adultos. Algumas pessoas que passaram anos a ganhar cada vez mais dinheiro parece terem a tendência para se preocupar com o sentido da vida delas quando os negócios correm mal. Outras, quando morre um ente querido, ou quando descobrem que têm uma doença terminal. Não tenho qualquer base científica para sustentar estas afirmações; provavelmente, algumas das pessoas que se preocupam com o problema, terão um interesse genuíno no verdadeiro problema, e não um interesse meramente interesseiro no sentido da sua própria vida. Mas também não penso que estas idéias, que tenho em resultado da minha observação assistemática, sejam completamente descabidas.
Quando olhamos para o problema do sentido da vida como um problema pessoal, é difícil ter a lucidez necessária para compreendermos o problema geral. O que queremos é responder à angústia que estamos a viver. Uma pessoa nestas circunstâncias dificilmente precisa de uma tentativa académica para tratar o tema. O que uma pessoa nestas circunstâncias precisa é de ser apoiada e encorajada; precisa de amizade e de um olhar de compreensão, e não de uma lição de filosofia. Uma pessoa nestas circunstâncias não compreende o verdadeiro problema do sentido da vida — esta é a minha convicção. As razões pelas quais eu penso isso são as que desenvolvo de seguida.
Se eu disser a alguém muito preocupado com o sentido da vida que uma vida que acrescente valor ao mundo faz sentido, desde que os valores sejam objectivos, esta resposta é insatisfatória. Essa pessoa quer uma resposta para a vida dela e uma resposta que ela possa compreender. A distinção entre valor objectivo e subjectivo de pouco lhe vale, se nem sequer compreende bem a distinção. A pessoa quer uma resposta pessoal a um problema pessoal — e não uma resposta universal que por inerência devia responder também ao seu problema.
É por este motivo que as respostas religiosas são em geral mais apelativas. Porque nas respostas religiosas a própria pessoa é importante; há um Deus que a vê e a escolhe, que lhe concede a vida eterna e a bem-aventurança, e não apenas um conceito impessoal de valor objectivo. Claro que se perguntarmos a essa pessoa, entretanto convertida, por que razão há-de Deus dar sentido à nossa vida, já que também isso não se compreende bem, obtemos uma resposta evasiva: Deus é o mistério, é o incompreensível, nós somos demasiado limitados para compreender os seus desígnios e a sua natureza. De facto, parece que somos até demasiado limitados, pelo menos alguns de nós, para compreendermos um artigo da Intelecto sobre o sentido da vida, quanto mais Deus. E é agora que a questão interessante se levanta: incompreensão por incompreensão, por que razão é a resposta religiosa melhor do que a filosófica?
Quero deixar para já esta pergunta por responder. Vejamos outra rota de incompreensão e de insatisfação. A resposta ao sentido da vida que evoca valores objectivos é realmente sofisticada e compreende-se que não seja por isso muito apelativa, apesar de também a resposta religiosa ser incompreensível. Mas também uma resposta como a de Peter Singer — que nem sequer acredita na objectividade do valor — é incapaz de satisfazer o nosso interlocutor angustiado com o sentido da vida. A resposta de Singer (e a minha própria, mas a um nível mais térreo e menos abstracto) consiste em dizer a essa pessoa para olhar para o mundo à sua volta com olhos de ver. E que medite no sofrimento dos que morrem à fome, dos que labutam diariamente para sobreviver, dos que sofrem as mais vis injustiças, do que são estropiados, privados dos seus direitos, etc. Mas quando se diz que uma vida terá sentido desde que possa servir para trazer algum bem a este mundo, desde que possa servir para ajudar alguns dos que estão em circunstâncias muito piores do que nós — quando se diz isto, o nosso interlocutor não se deixa impressionar. Tudo isso é verdade, há imenso sofrimento no mundo, mas a regra básica da psicologia humana é esta: um ardor no meu dedo mindinho é mais importante para mim do que um milhar de pessoas a morrer à fome a 5 Km de distância. Uma inquietação na minha alminha é mais importante do que as pessoas todas que estão à minha volta e que eu podia ajudar de várias maneiras. É assim que somos. O que não quer dizer que tenhamos de ser assim.
De modo que esta resposta, a um nível mais térreo, também não satisfaz nada o nosso interlocutor angustiado com o sentido da sua vida, com as suas dores de alma. O que ele quer é o impossível. Quer uma resposta simples e rápida, que dê sentido universal à sua vida, mas que ao mesmo tempo lhe fale a ele em particular e não a todos os seres humanos em geral e — sobretudo — não quer dúvidas nem ter de fazer grande coisa. Se tiver de fazer alguma coisa, terá de ser algo como um contacto directo com Deus. Não será capaz de dar 200 contos para ajudar uma vítima da fome ou da miséria, ou para ajudar um estudante pobre inteligente que de outro modo terá de deixar de estudar. Mas será capaz de gastar 200 contos numa peregrinação algures, ou num quadro com uma boa representação de Deus, ou numa viagem para ir ouvir e ver o Papa.
Esta atitude compreende-se. O que o nosso interlocutor quer é resolver a sua vida; não quer resolver a vida dos outros. E por mais que lhe possamos dizer que ajudar os outros é a melhor maneira de dar sentido à sua vida, isso é demasiado rebuscado para ele. Ele quer falar directamente com a gerência para ter a certeza que é promovido, não quer apostar na possibilidade de promoção sendo um trabalhador honesto e altruísta, que ajuda os seus colegas.
Nenhuma das 3 respostas que podemos dar ao problema do sentido da vida responde ao problema pessoal do sentido da vida. Isto não é uma deficiência dessas respostas. Resulta antes do facto de o problema pessoal do sentido da vida ser um falso problema, um problema que não tem realmente solução. É apenas uma inquietação emocional vaga e pouco lúcida, que costuma atacar os seres humanos quando estão numa situação emocional difícil — mas que é tranquilamente esquecida quando tudo corre bem na vida.
As 3 respostas que podemos dar, e as razões pelas quais são sempre insatisfatórias para o angustiado em busca da salvação, são as que se seguem.
Em primeiro lugar, podemos procurar mostrar que acrescentar valor ao mundo dá sentido à nossa vida porque há valores objectivos. Esta resposta não é satisfatória porque é demasiado abstracta. É difícil de compreender. Implicaria estudar filosofia seriamente pelo menos durante alguns meses.
Em segundo lugar, podemos mostrar que as finalidades últimas não são muito importantes para a nossa felicidade. Afinal, se a minha vida for feliz, tudo o que faço para preservar essa felicidade, e para a aprofundar e talvez partilhar, faz todo o sentido — tal como faz sentido dar-me a um trabalho imenso para ir passar férias para muito longe. Toda a viagem e despesa faz sentido porque aquelas férias naquele sítio são importantes para mim, e não há mais nada a dizer que lhe possa dar realmente valor. E isso chega. Mas esta resposta não satisfaz quem se defronta com o problema pessoal do sentido da vida porque essa pessoa está emocionalmente num estado que não lhe permite fruir a amizade, as férias, o amor, uma tarde chuvosa de leitura empolgante. Essa pessoa quer algo tão importante que lhe devolva o gosto pela vida. Mas:
Em terceiro lugar, podemos mostrar que, independentemente de os valores serem ou não objectivos, e independentemente de termos ou não gosto pela vida, há infelizmente sempre muitas pessoas há nossa volta que podemos ajudar decisivamente, apenas com algum esforço da nossa parte. Mesmo que isso não nos dê satisfação a nós, pelo menos dá satisfação a alguém. Esta resposta também não interessa nada ao nosso trágico angustiado, claro. Porque o que ele quer é retomar o gosto pela vida. E não quer obter tal coisa através da via inesperada do altruísmo. Não. Quer que Deus lhe fale directamente ao ouvido e lhe diga que a vida dela é muito, muito, muito importante, só porque é uma vida humana e só porque é uma pessoa única. Acho que tenho más notícias. Nenhuma vida humana é em si algo que tenha mais valor do que tem a vida de um símio — excepto se fizermos coisas que nenhum símio pode fazer, como trazer algum valor ao mundo e fazer bem a alguém no mundo.
Não quero deixar o leitor com uma nota de pessimismo. Quero dizer-lhe que há imensas coisas que estão nas suas mãos. Nomeadamente, as vidas das pessoas que estão à sua volta. E a criação de algo que seja bom para alguém. E que se por acaso enfrenta o problema pessoal do sentido da vida, do ponto de vista emocional o melhor a fazer talvez seja pensar um pouco menos em si e um pouco mais nos que estão à sua volta. Poderá descobrir, com algum espanto, que não tinha gosto pela vida porque a vida não tem gosto quando só olhamos para nós próprios e nos esquecemos dos nossos semelhantes.

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