segunda-feira, 1 de outubro de 2012

CONTRADIÇÃO, RELATIVISMO E REFUTAÇÃO: Aula do dia 02 de outubro de 2012 - Graduação em Filosofia

BREVE CURSO DE METAÉTICA

Aula do dia 02 de outubro de 2012 - PARTE A - Graduação em Filosofia
(Baseado em SHAFER-LANDU. Russ. What Happened to Good and Evil? New York-Oxford, OUP, 
2004)


Cap. 9 – Contradição e Desacordo


Uma contradição é a afirmação e simultânea rejeição de uma dada reivindicação, que é, ao mesmo tempo, dita verdadeira e falsa. Por exemplo, se dizemos que o quadrado da hipotenusa é igual à soma dos quadrados dos catetos e não é igual a tal coisa, então algo está errado: a contradição diz algo contra a teoria que a gerou.

O problema é que tudo se segue, logicamente, de uma contradição, todas as proposições serão verdadeiras, por mais loucas que sejam. É melhor evitar a contradição.

Subjetivismo e Relativismo geram contradições. Logo, melhor abandonar tais abordagens.

O Subjetivismo e o Relativismo geram contradição porque estabelecem como critério de verdade a opinião pessoal ou social, e a aplicação deste critério torna sentenças contraditórias ambas verdadeiras.

Uma saída é a qualificação das sentenças: que o aborto seja subjetivamente/relativisticamente errado significaria que o ele é errado para a mim/para minha sociedade, e ambas as sentenças são verdadeiras. 

Porém, no caso da qualificação, suprimi-se também o desacordo, que é um fato trivial de nossa existência.

O Niilismo não gera contradição porque para ele todas as sentenças morais são falsas: não há como chegar à verdade moral. 

Já o não-cognitivismo, SEGUNDO SHAFER-LANDAU)  não suprime o desacordo porque torna as sentenças morais expressões de atitudes que podem ser diferentes, diferentes, mas apenas quando forem desacordos emotivos é que existirá o desacordo e apenas um dos lados estará correto, porém, isso sé funciona se desacordos morais genuínos forem sempre desacordos emocionais (mas algumas vezes as pessoas são neutras emocionalmente enquanto ainda sustentam posições morais.

Há desacordo moral e ele é uma razão para desconfiarmos do Objetivismo (se o Objetivismo fosse verdadeiro não deveríamos já ter acordos morais significativos e saber como gerá-los para os casos que faltam?), o nãocognitivismo permite que haja tal coisa mas o explica mal; o subjetivismo e o relativismo não permitem que haja desacordo ou geram o desacordo sem ter como resolvê-lo.

Mas o Objetivismo também permite que haja desacordo moral genuíno e o explica do mesmo modo que explicamos desacordos em outras áreas, como na matemática ou na história.




Cap. 10 – Relativismo e Contradição


p. 45, # 2: “O relativista nos diz que um ato é certo se e somente se ele é permitido pelas convenções últimas da sociedade em que ele é realizado. Mas se ele é realizado em mais do que uma sociedade, ele é governado por  mais de um código. Quando seus elementos conflitam, existe contradição”.

Exemplo do caso fictício “máfia X USS Law” sobre assassinato de adversário, e dos casos reais “algerianos X legislação francesa” sobre mutilação feminina, e “indígenas X legislação americana” sobre uso de drogas: o mesmo ato é praticado em mais do que uma sociedade.

Há duas soluções: encontrar uma regra que diga qual sociedade deve valer mais, por exemplo, a majoritária (mas seria problemático explicar porque o número conta e como lidar com os casos em que isso seja apenas reflexo do poder e em que a maioria cometa erros morais), ou, quem sabe, a minoritária, mas isso seria tão arbitrário quanto a primeira solução (às vezes queremos que a maioria interfira nas ações de minorias que fazem coisas erradas como discriminação de parte de seus membros); outra solução seria permitir que os protagonistas escolham qual código deve prevalecer, mas qual protagonistas, o agente ou a vítima¿ Isso colapsaria o relativismo em subjetivismo


p. 46, # 3: “(...) de acordo com o relativismo, devemos seguir as regras da sociedade. Mas qual¿ Aquela em que o ato é praticado. E qual é¿ A mafiosa. E a norte-americana. Cada sociedade aconselhará que seu código prevaleça sobre outros. Desde que isso é assim, então estamos de volta ao ponto de partida”.


p. 46 # 4: (...) Em casos de conflito o relativismo nos dá o conselho que leva à contradição. Qualquer teoria que leva à contradição é false. O relativismo gera contradições. Logo, o relativismo é falso.”

Mas há a saída da qualificação: não há o certo e o errado em si, mas para determinadas sociedades: o assassinato é certo para os mafiosos e errado para os cidadãos normais de Nova York, e sendo assim, não há mais contradição. 

Porém, isso tem seu preço: (a) não podemos mais questionar se o código de nossa sociedade ou de uma sociedade qualquer são corretos, tal questão se torna sem significado ou é uma questão diferente. (Se tal questionamento é adequado, temos de abandonar a qualificação relativista e aceitar que há o certo e errado em si, ou sem qualificações subjetivas); (b) não podemos entender o desacordo moral, não haveria desacordo moral entre culturas, apenas posições variadas/diferentes, mas que não se comunicam entre si logicamente.

Assim o relativismo está em situação delicada: se ele admite que há o certo e o errado, que seriam relativos a dada cultura, ele gera contradição, e é falso; se ele não admite tal premissa, ele torna questionamentos corriqueiros questionamentos sem sentido e elimina desacordos morais genuínos.





Cap. 10 – É o ceticismo moral auto-refutante?


Uma teoria é auto-refutante se, quando aplicada, implica na falsidade dela mesma. O ceticismo moral não é auto-refuntante, mas algumas versões dele sim, especialmente quando se baseiam no argumento do ceticismo global (CG): o CG implica que não existe verdade objetiva. O CG é verdadeiro e implica o ceticismo moral (CM). Logo, CM é verdadeiro. 

O perspectivismo é geralmente a razão da popularidade do ceticismo. Mas como uma teoria que diz que não há verdade objetiva poderia ser verdadeira? Talvez o seja em termos niilistas, mas do fato de existem várias crenças conflitantes não precisamos concluir que não haja a verdade independente, e tal CG é autorefuntante (um tipo de teoria do erro global, para todas as sentenças, mas isso incluiria essa mesma sentença fundamental, algo que ocorre com as formas globais de ceticismo moral).

Ou o Niilismo Global é falso e não pode ser a base do Niilismo Moral, ou o Niilismo Moral é verdadeiro e então o Niilismo Global é falso.

O Subjetivismo/relativismo diz que a verdade está nos olhos de quem vê, mas então, em todos aqueles que vêem o subjetivismo/relativismo como falso, ele será falso (autorefutável). O relativismo só será verdadeiro no caso em que a sociedade pense que ele é verdadeiro. Nenhuma sociedade pensa assim. Logo, em nenhuma o relativismo é verdadeiro. Além de instaurar a infalibilidade e de não explicar adequadamente o desacordo, o ceticismo moral enfrenta o problema de sua autorefutação, se baseado em algum argumento do tipo em tela (baseado no ceticismo global).

Todo esforço de rejeitar a verdade objetiva por parte dos céticos solapa a autoridade do próprio ceticismo.

p. 53, # 5: “Se o NG é correto, então não há verdade alguma. Mas então nem o niilismo pode ser verdadeiro. Se o SG é correto, então ele é correto apenas se eu acredito nele. Se eu não acredito, então ele é falso, [pois essa sentença é verdadeira nos termos subjetivistas]. Mas se ele é falso, por que eu mudaria de ideia a respeito dele? Se o relativismo global é verdadeiro, mas minha cultura [que define o que é certo e errado] o rejeita, então, ele é falso. (...) A teoria, se verdadeira, implica sua própria falsidade, até onde uma sociedade a rejeita”. Isto é contraditório!

Quem defende o ceticismo moral em razão do ceticismo global tem de rever sua posição. Mas o ceticismo moral pode ainda ser verdadeiro, em outras bases.

QUESTÕES:


- Explique o que é a contradição entre enunciados morais e dê exemplos. Imperativos e Preceitos podem entrar em contradição com outros Imperativos e outros Preceitos? Dê exemplos.


- Qual o preço a se pagar para manter o relativismo em sua versão mais refinada?


- O que é ceticismo global e ceticismo moral? Por que e em que sentido se pode falar em auto-derrota (auto-refutação) do ceticismo?



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Aula do dia 02 de outubro de 2012 - PARTE B - Graduação em Filosofia
(Baseada em HARE, R. Ética, problemas e propostas. São Paulo, Martins Fontes, 2003)

EMOTIVISMO


(HARE, R.M. “Emotivismo”. In: Ética. São Paulo, Martins Fontes, 2003, cap. 6)

6.1 Até agora vimos que se os juízos morais fossem puramente descritivos, cairíamos no relativismo. Agora veremos como o não-descritivismo (que é a tese de que há algo mais nos juízos morais do que a estrita descrição de fatos) poderia evitar isso em algum sentido. O Emotivismo (E) foi um primeiro passo na descoberta ou consolidação desta alternativa pela apresentação e defesa de um aspecto não-descritivo, o aspecto chamado de emotivo, ao lado do aspecto descritivo. É importante porém distinguir o E difere do Subjetivismo (ver aula passada). Na versão padrão (Ayer, Stevenson) o elemento emotivo (não descritivo) teria dois aspectos: o expressivo (manifestar emoções morais) e o causativo (influenciar a conduta dos outros).

6.2 O aspecto expressivo (“seu burro idiota!”) se diferencia da enunciação de que se tem certa atitude (“estou muito zangado com você”). Na primeira se expressa a raiva, no segundo apenas se declara que se a tem. Reportar ou declarar atitudes é diferente de expressá-las e usá-las para modificar o comportamento dos outros. Mas há ambigüidade na palavra expressar: matemáticos expressam adição com sinal +; sempre que dizemos qualquer coisa estamos expressando nosso significado. Com o termo “wrong” expressamos desaprovação, assim como com “não” expressamos negação. É um significado direto, e para Stevenson, aprovação é a disposição de agir do modo aprovado e a encorajar os outros a agir do mesmo modo. Essa é a introdução do aspecto causativo: induzir atitudes nos outros, influenciar sua conduta.

6.3 A teoria do empurrão verbal ou de causatividade é um equívoco: o significado lingüístico é diferente da força causativa pois outras sentenças podem ser usadas para essa função, e às vezes usamos imperativos com outros propósitos (exemplo dos dois supervisores escolares). Tal aspecto não pode ser parte do significado: é o significado do imperativo que explica a função que ele possui geralmente e não o inverso.

6.4 A função ilocucional (comunicar ou dizer algo) é diferente da função perlocucional (fazer algo com o dito).  Dizer algo depende do significado dado pelas convenções lingüísticas padronizadas (o que propicia regras lógicas para se dizer algo com sentido). O significado então é diferente do que se pode fazer com tais expressões, e há muitos outros modos de se fazer isso, o que retira a possibilidade de regras lógicas para a função perlocutória. A facilidade de cairmos num emotivismo ocorre pelo sentido de concordar com um imperativo (fazer o que ele enuncia se concordamos com ele), mas a função de influenciar ou causar comportamentos não é parte do significado dos enunciados morais, assim como não dizemos coisas no indicativo para fazer com que as pessoas acreditem em nós.

6.5 Dois enganos de Stenvenson e do E: como atitudes não possuem condições de verdade, juízos morais, que expressam atitudes, não possuem força ilocutória, e assim, não são matéria para o raciocínio, que se ocuparia da verdade e falsidade de descrições mas não de imperativos. Mas a força ilocutória existe sem condições de verdade como condição necessária disto, pois imperativos possuem lógica, assim como os enunciados morais possuem também significado descritivo e condições de verdade. Assim, enunciados morais compartilham com imperativos a prescritividade, mas não se reduzem a eles. O outro engano é que aconselhar ou orientar sobre ações é diferente de induzir ação.

6.6 Assim é também enganosa a visão comum de que o descritivismo é racionalista enquanto o não-descritivismo seria irracionalista, ainda que compreensível dados os enganos acima. Se mesmo atos ilocutórios prescritivos possuem significado e lógica, então (pela aplicação desta lógica), é possível formas de raciocínio não-descritivistas.

6.7 Uma racionalidade não-descritiva visa a objetividade como consenso entre pensadores morais racionais que usam a lógica e observam os fatos envolvidos. Esse é o ideal de objetividade do não-descritivismo nas formas de prescritivismo  (Hare) e do expressivismo da norma (Alan Gibbard). São as teorias mais promissoras.

[Cf. artigo Atitudes Emotivas:]

6.8 Uma teoria ética adequada faz jus aos requisitos centrais da linguagem da moral e sua lógica. Podemos aceitar as partes das teorias até aqui que se adequam a estes requisitos e neste sentido a teoria será eclética no bom sentido. Requisitos de uma teoria ética adequada: neutralidade (ser aceita por partes divergentes; o naturalismo não é neutra ao definir o bom em termos naturais, pois vicia a disputa pendendo para um dos lados desde o início), praticidade (não permitir que se tenha apenas conclusões do tipo “e daí?”, permitir a prescritividade; todas as teorias descritivistas falham neste aspecto pois não possuem o aspecto não-descritivo), incompatibilidade (a teoria deve possibilitar que desacordos sejam de fato desacordos e não desacordos aparentes; parece que o naturalismo subjetivístico e em certa medida o intuicionismo falham aqui; também o naturalismo objetivístico falha se se refugiar na tese relativista que torna os desacordos, desacordos meramente verbais já que os grupos divergentes teriam significados completamente diferentes para seus enunciados), logicidade (lugar para relações lógicas entre os enunciados morais, especialmente da espécie imperativa conseqüencial: se é sempre errado dizer mentiras e se dizer determinada coisa é mentira, então ambas são incompatíveis com a proposição de que não seria errado dizer esta determinada coisa; o emotivismo falha nisso); argüibilidade (os requisitos 3 e 4 lava ao 5, que a teoria deve fazer algo para ajudar a resolver desacordos pela argumentação; todas falham, nisso); (conciliação: ver 6.9)

6.9 Uma teoria adequada tem de tornar possível que o pensamento e o discurso moral cumpram sua função de levar a um acordo por meio da discussão racional, levando à reconciliação de interesses conflitantes. Mas por que até hoje temos tantos conflitos e divergências então? Porque: (a) há desacordo sobre os fatos, muitas vezes complexos e difíceis de estabelecer; (b) não são muitas as pessoas capazes de pensar logicamente (claramente) a respeito de questões morais, a maioria cai em confusões; (c) muitas pessoas ainda não pensam moralmente (quando muito, shmoralmente). 


[programa de HARe para resolver conflitos morais: induzir o pensamento moral; torná-lo claro e distinto; estabelecer os fatos; ver o que esperar da conciliação – total, inexistente ou parcial]

Questões para debate:

1-      Qual a diferença entre Emotivismo e Subjetivismo?
2-      Por que o Emotivismo não é necessariamente vítima do relativismo?
3-      Quais os principais problemas do emotivismo?
4-      Explique cada requisito de uma teoria ética adequada e mostre como o emotivismo se sai em cada um.


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