segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Ética 1: Aula de 18 de setembro de 2012: Breve Curso de Metaética

O que aconteceu com o certo e o errado? 

Breve curso de Metaética


Prof. Alcino Eduardo Bonella, UFU/CNPq

Breve Introdução

Durante as próximas semanas, estudaremos alguns argumentos e teorias retiradas ou baseadas em sua maior parte no/do livro de Russ Shafer-landau (SHAFER-LANDAU, Russ. What happened to Good and Evil?. Oxford, Oxford University Press, 2004). 

  

Será um tipo de resenha: uma mistura de um resumo analítico (quando reproduzimos de modo sintético todas as ideias de um texto) com algumas questões de compreensão e debate e/ou comentários pessoais, ora críticos ora construtivos. 
Eu iria diferenciar resumo e comentário, colocando entre chaves o segundo, mas não farei isso algumas vezes, liberdade que tomo por ser esta uma postagem para aulas de graduação e também de divulgação da ética.


 

Estas postagens são um tipo de curso breve de metaética. A ética é o ramo do pensamento humano que lida criticamente com a moral. A moral é a instituição humana que lida com problemas acerca do que se deve fazer. Podemos  nos perguntar sobre o que se deve fazer em relação a uma gama vasta de problemas humanos, e este tipo de pensamento pode ser visto como normativo. Por exemplo, o que devemos fazer em relação à pobreza extrema que ainda existe ao lado da riqueza extrema e da riqueza moderada? E em relação ao abate de animais para nosso consumo de produtos animais?

 (Peter Singer, famoso pela sua Ética Prática) 

Mas podemos nos perguntar sobre a natureza deste tipo de investigação, e este tipo pode ser visto como metaético. Podemos nos perguntar sobre o que significa usar a linguagem do certo e do errado ou do que se deve fazer, se tal coisa é relativa ao que achamos (subjetivismo), ou relativa ao que nossa sociedade acha (relativismo), ou nem é isso, porque não existiria o que é certo ou errado (nihilismo), ou porque existem verdades morais independentemente das crenças ou opiniões individuais ou coletivas (objetivismo).

Há ainda a ética descritiva, que não faz pensamento normativo, nem metaético propriamente dito, mas científico. Nestas postagens estamos tratando apenas do segundo tipo, que é o tipo especificamente filosófico. É por isso que o título das postagens trará sempre o subtítulo "breve curso de metaética". E o problema central de todas é o que está no exemplo dado acima, as posições chamadas de céticas (nihilismo, subjetivismo e relativismo) e a posição chamada de objetivista.


Preácio do livro

Isso nos leva ao Prefácio do livro! O tema básico do livro [de certo modo da ética filosófica; e a tese básica do autor, e minha também], é que algumas visões morais são melhores do que outras, seja qual for a opinião sincera dos indivíduos, ou das culturas e sociedades. Essa é uma teoria fora de moda, pois a estória contada na maior parte do tempo e dos lugares (incluindo as aulas do Zé Maria, na UFF) é: 
                                    
                              "o que é certo e errado depende dos olhos de quem vê"





















- as culturas e sociedades (“bom para tal e qual sociedade”), ou indivíduos (“bom para mim; bom para você”). Isso tem seu charme próprio. Pensemos na tolerância de quem pensa diferente (o Zé Maria me atura e respeita minha visão, e eu aturo e respeito a dele) e no pluralismo ou diversidade de visões sobre a vida (a Georgia, da UFU, defende a pluralidade e a democracia; e eu também). Um filósofo cético nestes termos é Alan Goldman (um livro em que ele expõe seu pensamento é Reasons from Withim, 2009).

Mas tais coisas tão importantes para a maioria dos que adotam a estória atual (com certeza para o Zé e para a Georgia), são muito mal defendidos com aquela base ou fundamento relativísticos (ceticismo quanto ao que é certo) e seriam bem melhor defendidas com outra base ou fundamento. Exatamente a fora de moda, a objetivista. Para um objetivista, segundo Shafer-Landau,


                              "o que é certo e errado independe dos olhos de quem vê".







Isto foi e é totalmente errado!





Isto não foi e não é errado








Outra forma de dizer poderia ser, segundo eu mesmo:


 
                "o que é certo e errado depende dos olhos de todos" 











Para Shafer-Landau, na verdade, o que é certo e errado tem a ver com a realidade, assim como o que é verdadeiro em biologia, em matemática ou em história não depende dos olhos de quem (ou não depende apenas disto), depende também, em última instância, da realidade. No caso do certo e do errado, Shafer-Landau pensa que o conhecimento objetivo depende de uma realidade moral. Para alguns pensadores, como Richard Hare e Peter Singer, depende de um tipo especial de acordo racional entre pensadores morais munidos da lógica e dos fatos, não há um exatamente uma realidade moral "lá fora", mas há ainda como usar a razão para questionar e embasar as "visões" morais particulares possíveis em função de visões testadas como "universalmente válidas" ou universalizáveis, e prescritivas ou motivacionais. (Singer diz que está em dúvida, depois de ler o último livro de Derek Parfit, chamado On What Matters, sobre valor, razão e moralidade objetiva, mas a dúvida no caso ainda joga em favor da posição objetivista e não da cética. 

Será que eu estou muito velho e com uma vida muito burguesa para pensar tais coisas nestes termos, ou seja, em apoiar o Objetivismo (e Universalismo) ético? Os mais jovens em geral estão mais próximos de Nietzsche com seu perspectivismo, ou seja, "cada ponto de vista é visto de um ponto", e de Sartre, com seus existencialismo, ou seja, a moral é questão de escolhas autênticas de cada um (cada um de nós tem sua visão singular do que se deve fazer e do que é valioso).

Mas não importa, o que importa é o argumento, sejamos novos ou velhos. E o melhor argumento sobre a natureza dos nossos juízos morais está do lado objetivista do debate. Duvida? Bom, eu também tenho algumas duvidas, seja porque isso penso muito com a visão de Hare e Singer citadas acima, seja porque penso que se pode explorar uma perspectiva cética para a moralidade e para a metética, do tipo que os professores Oswaldo Porchat e Luiz Henrique Dutra defendem em seus trabalhos sobre isso. Shafer-Landau, ao menos, não duvida, e vamos acompanhar os passos argumentativos dele.

 * * * * *

(1) Você já ouviu algo sobre moral ou utiliza a moral em sua vida? E nossa sociedade? O que acha de tudo isso, e por que?
(2) Quais os tipos de ética que estão relatados no texto?
(3) Quais os tipos de ceticismo ético e de objetivismo ético relatados no texto?
(4) Qual a visão que você encontra na universidade entre professores e alunos. E em outros lugares?


 
Partes do livro e seus conteúdos principais:

O livro se divide em 3 partes:


(I) O estatuto da Moralidade, que trata (1) da natureza do problema (a natureza metaética ou epistemológica do tema principal do livro: posições contra a existência da verdade moral - que o autor denomina de Ceticismo Moral, e que se dividem em 3, Nihilismo, Subjetivismo e Relativismo; e a posição a favor, que ele denomina de Objetivismo Ético), e (2) do terremo filosófico em que tal problema é tratado. (mais abaixo, veja o resumo do capítulo 1).


(II) Contra o Ceticismo Moral, que trata (3) do erro moral (podemos errar em nossas opiniões morais?), (4) da equivalência moral entre posições discrepantes entre si (será que todas as proposições morais se equivalem), (5) do progresso e da comparação morais (podemos comparar as proposições morais do passado com as do presente e detectar progresso - ou regresso - moral?), (6) do dogmatismo, (7) da tolerância, e (8) da arbitrariedade, (9) da contradição e do desacordo, (10) do relativismo e da contradição, e (11) da auto-refutação do ceticismo moral.


(III) Em Defesa da Objetividade Moral: em que o autor tenta nos convencer que o Objetivismo resolve os problemas que afetam o Ceticismo Moral (12), que o Objetivismo implica num tipo especial de universalidade que não o tipo criticado pelos céticos, e que ele, o Objetivismo, é  indiferente à verdade ou falsidade do absolutismo ético (13), que o desacordo moral não é tão importante quanto parece à primeira vista (14), que a objetividade da moral não depende da existência de Deus (15), que os padrões morais não precisam ser criados por alguém, nem por nós, nem por Deus, nem por ninguém (16), que é possível conciliar valores morais e ciência (17). Ele também tenta responder a 5 críticas céticas que se referem à possibilidade de haver conhecimento moral objetivo, quatro delas no cap. 18, e uma em especial - chamada de argumento da regressão infinita - no cap. 19, e termina discutindo a famosa questão de por que haveremos de ser pessoas decentes (por que sermos morais).


Depois da conclusão, encontramos no livro uma sinopse dos principais argumentos analisados e suas principais fraquezas, um glossário com os conceitos fundamentais, e um índice analítico. A sinopse é muito útil para aulas e seminários.


* * * *


1 - Você pensa que os padrões morais são objetivos ou subjetivos? Se são subjetivos, é porque são individualmente relativos (cada um tem sua opinião sobre o que é certo e errado) ou culturalmente relativos (cada sociedade tem sua opinião moral)? Se são objetivos, é porque foram criados por Deus e por Ele são certificados, ou há outro modo de se pensar numa norma moral verdadeira ou objetiva?


 2 - Você admira a diversidade, preza a tolerância e não gosta de pessoas que acham que são donas da verdade, certo? Será que então você ficará mais à vontade se estiver do lado dos que dizem que a moral é subjetiva ou do lado os que dizem que a moral é objetiva? Por que exatamente?


* * * *




Parte I: O status da moralidade

 
1 – A natureza do problema

 
 

Para o ceticismo ético [Shafer-Landau usa moral no lugar de ético, mas não entendi até hoje porque exatamente, principalmente porque para o Objetivismo ela usa o adjetivo "ético": ou usamos "moral" para as duas abordagens, ou usamos "ético"; e, por causa destes dois primeiros capítulo, prefiro adotar o segundo termo] a bondade está nos olhos de quem vê. Por isso, ou não há verdade moral alguma (nihilismo), ou ela existe, mas para alguém (Subjetivismo)ou quem sabe, para uma sociedade (Relativismo). 
Para o objetivismo ético, algumas ações são erradas e ponto, não há que qualificar como boas para alguém ou para uma sociedade.  O Objetivismo ético parece meio fora de moda e um tanto retrógrado. 




FORA DE MODA




 



NA MODA!






Isso se dá porque: (1) perdemos a fé em figuras de autoridade moral, sejam religiosas, sejam seculares
[quem já foi petista de carteirinha antes do PT chegar ao poder, sabe o que é isso, não?]; (2) fomos e somos mais expostos a outras culturas, diferentes da nossa; (3) não aprovamos o fanatismo religioso-moral, cuja certeza levou à morte de milhares de vidas; (4) temos aparentemente razões filosóficas para isso: se houvesse o bem e o mal, por que haveria desacordo moral e o desacordo sobre o método pra alcançar o conhecimento do certo e do errado? Se houvesse padrões objetivos do certo e errado, por que não permitiríamos a intolerância e o dogmatismo? Este seria, porém, um preço alto demais, e seria melhor abandonar o Objetivismo. 

 
Além disso, não implicaria o Objetivismo a existência de Deus? Como porém não temos evidências nem razões suficientes (basta ver o sofrimento existente no mundo, ou constatar a não verificabilidade dessa existência) para crer em Deus, então não deve haver moral objetiva. 







 









Chaplin: humanista e descrente em Deus! Que o humanismo é bom depende de Deus existitr?

Hitler: crente em Deus e desumano!










Nós fazemos juízos morais, quase o tempo todo, ao menos contra certos atos muito nocivos. Mas adotamos o ceticismo ético como nossa interpretação filosófica predileta. [vocês, eu não]. Seremos esquizofrênicos éticos? Não se trata de apontar para as soluções morais de problemas práticos, mas para o problema ético (ou seja, filosófico) de que tais soluções podem ser incompatíveis entre si e não podem ser ambas verdadeiras ou corretas, quando se contradizem.  E sendo assim, é o Objetivismo, e não o Ceticismo Moral que deveria ser nossa interpretação.

 
Podemos relacionar Objetivismo com Dogmatismo (se há verdade, quem estiver errado tem de ceder), mas também podemos relacionar Ceticismo com Dogmatismo (se tudo é relativo, a intolerância estará sempre certa para quem assim pensar). Também podemos relacionar Tolerância com Ceticismo (se tudo é relativo, todas as visões morais são iguais, merecem um lugar ao sol), e Tolerância com Objetivismo (se há verdade moral, não podemos defender qualquer coisa e estar sempre certos; a tolerância pode ser uma das verdades morais objetivas que vale independentemente do aval das pessoas).

 
                    
           "Quem abraça a possibilidade de uma moralidade objetivamente verdadeira está                                                                
            errado em supor que ela lhe dá licença para dominar e matar quem discorda. E 
            aqueles que valorizam a tolerância estão equivocados quando buscam apoio no
            relativismo moral e em doutrinas associadas a ele". (p. 6)

 



Se nossa moral é verdadeira, vamos impo-la aos outros?









Vamos matar em nome da difusão de nossa cultura?










Todos os seres humanos são iguais, a escravidão é errada em qualquer lugar e em qualquer tempo!










Genocídio de 800 mil em Ruanda: 2.500 soldados da ONU evitariam isso, mas eles não foram enviados para lá!




Uma vez que pensemos com clareza e cuidado, veremos os pontos fracos do Ceticismo Moral. Veremos que faz sentido pensar que algumas coisas são boas e outras más e ponto, sem qualificações relativistas. E que faz sentido dizer que a moral não é um produto humano, que o certo e o errado nunca estiveram ausentes, nós é que achávamos isso, equivocadamente.

 
 

2 – O Terreno da Filosofia [Jairo diria O Terreiro Filosófico]

 
Ao invés de tratar de moral, trataremos de epistemologia da moral, ou, de metaética, pois o tema principal versa sobre alguns aspectos importantes de teorias que incorporam uma interpretação da verdade moral. Ora, refletir sobre a interpretações da (possível) verdade moral é um trabalho filosófico.

O Ceticismo ético pode ser dividido em 3 espécies: nihilismo, subjetvismo e relativismo.
            
   "Nihilistas acreditam que não existem verdades morais. Subjetivistas 
    acreditam que a verdade moral é criada por cada indivíduo. Relativistas 
    acreditam que a verdade moral é uma construção social. Estas três 
    teorias partilham a visão de que, em ética, nós é que fazemos tudo. 
    Antes de nossas decisões sobre questões morais, nada é bom ou mal. 
    Ou a moralidade é uma ficção, e nada é certo ou errado, ou as verdades 
    morais dependem exclusivamente de que dizemos (individual ou 
    coletivamente). (p. 11)
                

 
Nihilismo Moral (proposições morais querem descrever o que é objetivamente certo ou verdadeiro, mas nunca conseguem atingir esse objetivo por que prescrições ou normas morais nunca podem ser certas ou verdadeiras, são sempre um engano, ou, são sempre falsas). 

 
  1. (Se lemos os outros livros de Shafer-Landau, encontramos que a famosa teoria do erro de Mackie é um exemplo deste nihilismo (o certo é acreditado como existindo objetivamente, mas é na verdade uma ilusão, não nada na moral que não seja subjetivo, e nossa visão comum sobre o certo e errado soa algo estranho, depois do escrutínio filosófico).  Estranhamente, teorias chamadas de não-cognitivistas também são, para ele, nihilistas. Exemplos desta visão são o imperativismo [de Carnap], o emotivismo [de Stevenoson], o prescritivsmo [de Hare] e o expressivismo [de Blackburn ou de Gibbard]. Ele pense isso porque entende que nessas abordagens todas, o certo e o errado são meras expressões de emoções e compromissos práticos humanos, sem contato com o argumento lógico e sem aspirações à verdade). 


 
Subjetivismo Moral (proposições morais podem ser certas ou erradas e o que é certo depende do que eu acho - ou você acha - que seja certo); 

 
Relativismo moral (proposições morais podem ser certas ou erradas e que é certo depende do que a minha sociedade - ou a sua - acha que é certo).

 
Um dos problemas com essas visões é que elas tornam os compromissos morais últimos infalíveis, sejam eles individuais sejam culturais.


Objetivismo ético, em oposição ao ceticismo, sustenta que há proposições morais objetivas e que os padrões do certo e errado não são meras construções humanas. Mesmo os compromissos morais mais fortes dos indivíduos ou das sociedades podem estar errados, como ocorre na ciência e na matemática, ondenós não temos verdades porque achamos que são verdade, mas antes, nós achamos que são verdades porque são realmente verdades

 
Agora o ponto central: Objetivistas estariam melhor equipados para resistir ao dogmatismo e à intolerância, e é bem sustentado por nossas crenças em geral. Já o ceticismo, que é uma boa estória, mas tem muitos flancos e implicações muito ruins, e deveria ser abandonado. 

 
[Há porém vários tipos diferentes de teorias objetivistas: naturalistas, intuicionistas, mentalistas, universalistas, quase-realistas, normo-expressivistas. Shafer-Landau mesmo é um tipo de intuicionista, e, como vimos, os três últimos desta lista não são para ele objetivistas mas nihilistas].

 
* * * * * *

 
1 - Explique uma das razões para gostarmos mais do ceticismo do que do objetivismo, segundo o autor. Você visualiza alguma outra razão? Explique-a.

 
2 - O que você entendeu por esquizofrenia ética? Você pode dizer dois princípios morais que você pratica?

3 - Agora, depois de dizer isso, você pode dizer e explicar em que sentido eles poderiam ser objetivamente verdadeiros? Você pode explicar em que sentido eles não são verdadeiros, se é que não são?

4 - Acrescente depois de proposições morais o seguinte: "tais como a que diz que relações homessexais são erradas"tais. Viu como fica? Agora acrescente "tais como a que que diz que a escravidão é errada" E agora, o que achou da performance das duas grandes teorias, cética e objetivista?

 
* * * * * 



Parte II: Contra o ceticismo ético

3. Erro Moral.

Muitas vezes confundimos a moralidade convencional, que tem afinidades com o direito (conjunto de leis de um certo país), com a moralidade objetiva (os padrões morais do certo e do errado), porém, faz todo sentido pensarmos que a moralidade convencional pode se enganar porque as visões morais dos indivíduos e sociedades podem estar erradas. Suponha o caso da escravidão ou da discriminação das mulheres.

Há ao menos duas interpretações para o erro ao endossar coisas tão feias, digo, tão ruins: a teoria do erro (Mackie), para quem toda visão moral está sempre errada, apesar de ter a intenção de representar o que seria certo objetivamente, e a teoria objetivista (do Shafer-Landau mesmo, por exemplo), para quem há um padrão ou normas do que é certo e errado que é independente das crenças vigentes, e que serve, por isso mesmo, para julgarmos o nosso possível erro, ou o possível erro de quem quer que seja.


"De acordo com a teoria do erro, cada elemento da moralidade convencional está equivocado. Assim,      
as visões básicas do escravocrata e do misógino são FALSAS (são todas equivocadas, porque não    
existe esse "trem" do certo e do errado - eu moro em Minas, tenho de usar "trem" para algumas coisas, 
como o mineiro que diz à esposa na estação de trem - sem aspas - "mulher, arruma os trem que a 
coisa tá chegando" - tudo aqui nesses parênteses veio de mim e não do Shafer-Landau). Muito bom!    
Mas do mesmo modo são as visões morais do santo, do que defende a liberdade e do benfeitor 
anônimo. Ih, nada bom!"

Dá para entender qual o problema de um meio termo, que diga que há um padrão do certo e do errado que realmente funciona ou é adequado, reecusando então a teoria do erro: no subjetivismo, a escravidão até pode ser errada, mas para isso a pessoa que julga tem de aceitar isso, se ela acha diferente, ela deixa de ser errada. O mesmo com o relativismo social: as posições morais não são todas equivocadas, como diz a teoria do erro, mas para que o certo ou o errado exista, as sociedades tem de produzir normas sociais e uma delas é a proibição da escravidão.

Aqui o problema: os escravocratas em sua imensa maioria para não dizer todos, serão indivíduos ou formarão uma sociedade em que a escravidão é um bem e não um mau, certa e não errada, mas é um tanto óbvio que se há algo que seja ruim e errado moralmente, ao menos para nossa consciência e cultura atual, é a escravidão de outros seres humanos. Deve haver algo de errado com estas teorias todas, e Shafer-Landau sugere que o erro é descartarem rapidamente a interpretação objetivista. 

"Quando nós reivindicamos, por exemplo, que aqueles que rebaixam as mulheres a cidadãs de segunda 
classe estão agindo erradamente, não queremos dizer que aqueles que favorecem a igualdade também 
estão agindo mal. Pelo contrário. Nossas suposição básica é que equívocos morais podem e devem 
ser corrigidos". (p. 16)

Vejam os dois tipos de críticas que uma moralidade convencional (pense na regra "os meninos podem fazer xixi em pé e não precisam dar descarga logo após o fazerem, mas não as meninas, que devem dar a descarga quando chegam ao banheiro, fazer xixi sentadas, e dar a descarga depois de se levantar") está sujeita:

A crítica interna, que se baseia nos fundamentos da moral convencional em questão (pode-se criticar os meninos que fazem xixi fora do vaso, sujando tudo, pois eles poderiam "acertar" o lado interno e não deixar nem um pingo no vaso e no chão), e a externa, que questiona também as suposições fundamentais de uma cultura (pode-se criticar o costume todo e exigir igualdade para as mulheres, ou igualdade com as mulheres: todos precisam "acertar" o alvo e dar a descarga depois, porque todos são iguais - esse exemplo estrnaho é meu, não do Shafer-Landau). 

Shafer-Landau sugere que só o Objetivismo pode interpretar adequadamente a crítica externa e dar-lhe o devido suporte, mas não o Ceticismo. Por que? Porque se rejeitamos o Objetivismo, então nossas visões morais estarão sempre certas, sejam quais foram. Se a moralidade convencional é tudo que há, então um nazista consistente (como aquele que aceita tranquilamente ir para a câmara de gás quando descobre que sua família de fato é judia - você já encontrou um assim?) ou um terrorista racional (que aceita que sua causa seja destruída se lhe provam que ela está contra os objetivos dela mesma - você também encontra muito desta espécie por aí?) serão virtuosos, sem falha moral. 

O Subjetivismo e o Relativismo Social, que vêem a moral como empreendimento puramente convencional, acarretam um tipo de INFABILIDADE MORAL dos indivíduos ou sociedades. Mas isso é bastante arrogante, sem suporte lógico suficiente, e moralmente problemático. O Objetivista tem uma outra estória para contar:

 "O outro diagnóstico do erro moral fundamental é dado pelo objetivista ético. Se mesmo as mais 
 profundas convicções de indivíduos dos indivíduos ou das sociedades podem estar erradas, então, 
 tanto quanto exista qualquer verdade moral, deve existir algum padrão, que seja independente destas 
 convicções, e que existem para desafiá-las como erros." (p. 16)

Fontes:

SHAFER-LANDAU, Russ. Whatever Happened to Good and Evil? Oxford, Oxford University Press, 2004.
Bíblia de Jerusalém, São Paulo, Paulus, 2002.
        
* * * * * *
1 - Explique as quatro interpretações do erro moral de apoiar a escravidão ou a discriminação das mulheres.
2 - Você vê algum jeito de defender a teoria do erro, o subjetivismo e o relativismo? Como seria?
3 - Você vê algum modo de rejeitar o objetivismo?
4 - Aplique as respostas 2 e 3 aos exemplos dados no texto.
5 - Por que será que o apóstolo Paulo escreveu na Bíblia: "Escravos, sejam submissos aos seus senhores", e "mulheres, sejam submissas a seus maridos"? Ele apoiava a escravidão e a discriminação das mulheres? (Ele também escreveu que no mundo novo do reino de deus, "não há mais escravo nem livre, homem nem mulher", escreveu uma carta pedindo a um senhor que recebesse bem a seu escravo fugitivo, e "não como escravo, mas como um irmão", e foi perseguido pelas autoridades de sua sociedade por lutar contra a discriminação dos "pagãos" - "não há mais gentio ou judeu").

* * *
O problema da Equivalência Moral

Cap. 4

Equivalência Morar significa que toda e qualquer concepção moral é tão certa ou tão errada quanto qualquer outra. Isso soa democrático, é  da moda (é algo contemporâneo) e é normalmente aceita em vários círculos, especialmente universitários, mas como algo teórico, abstrato, quase nunca diante de exemplos concretos, sejam mais dramáticos (concepções morais nazistas versus liberais, concepções discriminatórias e opressivas versus benevolentes), sejam menos dramáticos, quando sustentamos uma posição moral em primeira pessoa. 

Ora, o niilismo, o subjetivismo e o relativismo social acarretam a equivalência moral. Se rejeitamos a equivalência moral, então temos razões para rejeitar estas filosofias, e adotar o objetivismo. Por que?
Porque se o niilismo (a interpretação de que nada é certo ou errado moralmente) fosse verdadeiro, a ideia comum que em geral aceitamos. de que se alguma ação é correta, então sua negação tem de ser errada, teria de ser abandonada. Se o nazista diz que exterminar judeus é justo, então o que o liberal diz, que o extermínio não é justo, teria necessariamente de ser errado, e vice-versa. Se eu digo que meninos e meninas devem ser tratados com igualdade, então quem diz que não devem, devem estar errados. Mas se o niilismo é aceito não podemos pensar nestes termos. Isso não significa que o niilismo é falso, ele pode afinal ser verdadeiro, mas não temos muitas razões ou argumentos fortes em seu favor, e temos vários em favor de outras interpretações, como a subjetivista, a relativista social e a objetivista.

A equivalência moral implica que, havendo várias perspectivas morais, todas tem o mesmo valor. Todas são corretas (ou falsas). Mas isso não procede, pois do fato de que há várias perspectivas morais, não se segue necessariamente isso, pois algumas podem ser melhores do que outras (normativamente falando), mesmo sendo apenas uma perspectiva dentre outras (empiricamente falando). Do fato de que toda reivindicação moral é expressa em uma perspectiva particular não se segue que toda a moralidade é puramente convencional (e possuem, todas as moralidades, igual valor).

Veja o exemplo das ciências e da matemática: quando se discorda em uma delas, havendo mais de uma perspectiva sobre a verdade científica (que a Terra gira em torno do Sol X que o Sol gira em torno da Terra, por exemplo), não implica ou acarreta que todas as posições são verdadeiras, são adequadas, ou dependem da opinião dos que acham isso ou aquilo, ou, da opinião da sociedade.

A equivalência moral se apoia no argumento da Liberdade de Consciência e de Expressão: (1) todos nós temos igual direito de expressar nossas opiniões morais; (2) esse direito de igual opinião e expressão dá a nossas opiniões o mesmo valor moral; (3) logo, a opinião de cada um está correta e é moralmente equivalente à dos outros. Mas a segunda premissa é falsa! Seja em matemática, biologia, engenharia de automóveis, ou ética, este passo não se segue da primeira premissa. Eu posso ter direito e direito igual de ter uma opinião sobre o motor de meu carro, mas daí não se segue que minha opinião seja necessariamente equivalente, em sua adequação ou correção, à de meu mecânico, que também é engenheiro de motores. O mesmo.

"Embora meu direito de ter uma opinião sobre a natureza de uma galaxia distante, ou sobre a estrutura celular de uma romã, seja tão justo e válido como o direito de qualquer outra pessoa, ele não significa que minha opinião sobre estas matérias é tão justa e plausível como, digamos, de um astrônoma e de um botânico".

O mesmo para a ética, pensa ao menos Shafer-Landau (e eu). 



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