sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017



Orientação aos estudantes interessados em orientação e pesquisa 

[I] Ciências da Saúde 
[II] Filosofia

[I] MESTRADO E DOUTORADO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE UFU  
http://www.pgcs.famed.ufu.br/ 

Foco Temático no programa: Bioética e Qualidade de Vida.

São acolhidos projetos que contenham análise e avaliação éticas com foco principal nas áreas de: ética teórica, ética aplicada, bioética, ética na saúde pública, ética médica, ética na pesquisa.

São bem vindas pesquisas sobre problemas tais como: pesquisa com embriões humanos, aborto, eutanásia, experimentação animal, estipulações sobre o valor da vida humana, estipulações sobre o valor da saúde pública, teorias e metodologias em bioética.

Para contato formal é necessário saber inglês e apresentar um ensaio de até 5 páginas redigidas sobre o assunto de seu interesse (problema e ideia central, objetivos, desenho da pesquisa ou passos do estudo, argumentos (iniciais) e objeções/alternativas).

Sugere-se, para a produção e forma do ensaio, seguir os passos que estão no livro de WESTON, A arte de argumentar (Lisboa, Gradiva, 2005) e, para o conteúdo do ensaio, fazer revisão de literatura atualizada com base no PUBMED e em Revistas de bioética de alto padrão (veja no link abaixo), além de livros filosóficos relevantes ao tema, se houver.

Há concorrência de propostas que destaquem com clareza: aspectos factuais (por exemplo, informações relevantes), valorativos (por exemplo, princípios e avaliações morais), e práticos/normativos (por exemplo, normas gerais, leis, políticas públicas, protocolos profissionais ou condutas individuais).

Para encontrar os nomes das Revistas de Bioética: https://bioethics.georgetown.edu/2015/03/top-200-most-cited-bioethics-articles-published-since-2009/

http://lattes.cnpq.br/2585330510002189


-----------------------------------------------
[II] MESTRADO EM FILOSOFIA - UFU  (http://www.posfil.ifilo.ufu.br/)

São acolhidas pesquisas nas áreas de: metaética (por exemplo, teorias realistas e expressivistas; epistemologia moral; verdade moral; raciocínio moral; argumentos e lógica em moralidade), ética normativa (por exemplo, teorias utilitaristas, deontológico-kantianas, intuicionistas-pluralistas), e ética aplicada (por exemplo, pesquisa com embriões humanos, aborto, eutanásia, suicídio assistido, valor da vida humana, valor da saúde pública, metodologias em bioética).

Para contato formal é necessário saber inglês e apresentar um ensaio de até 6 páginas redigidas sobre o assunto de seu interesse (problema e ideia central, objetivos, desenho da pesquisa ou passos do estudo, argumentos (iniciais) e objeções/alternativas). Sugere-se, para a produção e forma do ensaio, seguir os passos que estão no livro de WESTON, A. A arte de argumentar, Lisboa, Gradiva, 2005, e, para o conteúdo do ensaio em ética aplicada, fazer revisão de literatura atualizada com base em PUBmed e em Revistas de bioética de alto padrão (veja no link abaixo), além de livros filosóficos relevantes ao tema, se houver.

Há concorrência de projetos que abordem problemas, temáticas ou autores de maneira conceitual e argumentativa (analítica), tratando de um tópico filosófico específico (não serão aceitos projeto estritamente de interpretação de autores ou sistemas, desligados de problema específico ou desenvolvimento teórico sobre o ponto). Propostas em ética aplicada e bioética devem destacar com clareza: aspectos factuais (por exemplo, informações relevantes), valorativos (por exemplo, princípios e avaliações morais), e prático-normativos (por exemplo, normas gerais, leis, políticas públicas, protocolos profissionais ou ações justificáveis).


Revistas de bioética: https://bioethics.georgetown.edu/2015/03/top-200-most-cited-bioethics-articles-published-since-2009/
http://lattes.cnpq.br/2585330510002189

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Greve na Universidade, 2016.

Em outubro escrevi esta avaliação sobre entrar ou não em greve que, a pedidos de alguns alunos e colegas, coloco aqui.

"Preocupa-me muito ainda, neste momento delicado do país, se entrar em greve agora seria adequado, já que:

[1] ainda não tenho clareza sobre a emenda do teto e disciplina nos gastos públicos federais, nem tenho conhecimento adequado de suas consequências prováveis (não só para nós, educadores, funcionários civis e alunos de universidades - e nossos projetos pessoais e coletivos como grupo de interesse corporativo e organizado -, mas também para outros atores e para o país como um todo, incluindo especialmente os afetados pela recessão, pelo desemprego e pela perda inflacionária, como também, e daí a dificuldade em decidir, dos que dependem no curto prazo da assistência social, do SUS e do ensino público); [2]não tenho convicção de que a greve seja um instrumento eficiente para lidar com isso agora; [3] supondo, todavia que a greve seja boa e eficaz, ainda pode ser que não seja o momento de usá-la, pode ser que a UFU deva esperar um pouco para avaliar o movimento antes de aderir significativamente (a UFU já foi das primeiras a iniciar movimentos assim no passado, movimentos que muitas vezes não "pegavam" e nos deixavam com o ônus de manter uma paralisação sem apoio de outras instituições).

Dados [1], [2] e [3], resolvi não aderir à greve, neste primeiro momento, e quero que os alunos sejam informados, por favor, que manterei meus cursos regularmente.

Quatro pontos complementares relevantes: [4] estou estudando o assunto da PEC do teto nos gastos e espero ter mais clareza e conhecimento adequado proximamente, quem sabe em novembro, mas ainda não apoio nem desaprovo integralmente a medida; simplesmente ainda não formei minha posição com a devida ponderação que o assunto merece (e estou tentando fazer isso de modo não tendencioso, com base em informações e avaliações de apenas um lado do debate, o que porém toma tempo e esforços para fazer; [5] o projeto de lei "escola sem partido" ou de reforma do ensino médio não é suficiente para justificar greve, ainda que eu o desaprove totalmente;  (neste ponto já que há alternativas de ação - como manifestações, mídia escrita e falada, simpósios e conversas individuais - já em curso e bastante promissoras, além de que, neste caso, greve de professores universitários parece reforçar o apelo do projeto para muitas pessoas e políticos (e outro ponto: a principal razão eu entrar em greve, se entrar, é o problema do teto nos gastos, e não este e outros projetos de lei); [6] pessoalmente, uma vez que não sou associado da ADUFU e então, não me vinculei voluntariamente às decisões da associação e da assembleia sindical, em especial em função de desaprovar a ADUFU e ANDES pelos modos autoritários e com manipulação de condução de decisões coletivas da parte destas associações e seus líderes, em particular em matéria de greves, tenho boas razões pessoais para não seguir o movimento grevista sindical da ADUFU e da ANDES agora; assim como [7] desaprovo que o CONSUN ou Administração endosse e promova indiretamente greves por decisões institucionais de calendário e outras administrativas, algo que ofende a liberdade docente e discente sem boas razões (e que não quero que seja usado, no futuro, contra greves. Ou seja: nem contra nem a favor).

[4], [5], [6] e [7] justificam e reforçam a deliberação de, pessoalmente, não aderir à greve neste momento. 

(Não tenho porém, nada a pedir ou aconselhar a vocês, quis só externar minha situação e reflexão no momento. Também não gostaria que me pedissem ou aconselhassem, ou ordenassem, nada sobre isso, ainda que escutarei com atenção aos que quiserem assim o fazer).

Cordialmente,

Prof. Alcino". 

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Orientação aos estudantes interessados em orientação e pesquisa 

[I] Ciências da Saúde 
[II] Filosofia

[I] MESTRADO E DOUTORADO EM CIÊNCIAS DA SAÚDE UFU  
http://www.pgcs.famed.ufu.br/ 

Foco Temático no programa: Bioética e Qualidade de Vida.

São acolhidos projetos que contenham análise e avaliação éticas com foco principal nas áreas de: ética teórica, ética aplicada, bioética, ética na saúde pública, ética médica, ética na pesquisa.

São bem vindas pesquisas sobre problemas tais como: pesquisa com embriões humanos, aborto, eutanásia, experimentação animal, estipulações sobre o valor da vida humana, estipulações sobre o valor da saúde pública, teorias e metodologias em bioética.

Para contato formal é necessário saber inglês e apresentar um ensaio de até 5 páginas redigidas sobre o assunto de seu interesse (problema e ideia central, objetivos, desenho da pesquisa ou passos do estudo, argumentos (iniciais) e objeções/alternativas).

Sugere-se, para a produção e forma do ensaio, seguir os passos que estão no livro de WESTON, A arte de argumentar (Lisboa, Gradiva, 2005) e, para o conteúdo do ensaio, fazer revisão de literatura atualizada com base no PUBMED e em Revistas de bioética de alto padrão (veja no link abaixo), além de livros filosóficos relevantes ao tema, se houver.

Há concorrência de propostas que destaquem com clareza: aspectos factuais (por exemplo, informações relevantes), valorativos (por exemplo, princípios e avaliações morais), e práticos/normativos (por exemplo, normas gerais, leis, políticas públicas, protocolos profissionais ou condutas individuais).

Para encontrar os nomes das Revistas de Bioética: https://bioethics.georgetown.edu/2015/03/top-200-most-cited-bioethics-articles-published-since-2009/

http://lattes.cnpq.br/2585330510002189


-----------------------------------------------
[II] MESTRADO EM FILOSOFIA - UFU  (http://www.posfil.ifilo.ufu.br/)

São acolhidas pesquisas nas áreas de: metaética (por exemplo, teorias realistas e expressivistas; epistemologia moral; verdade moral; raciocínio moral; argumentos e lógica em moralidade), ética normativa (por exemplo, teorias utilitaristas, deontológico-kantianas, intuicionistas-pluralistas), e ética aplicada (por exemplo, pesquisa com embriões humanos, aborto, eutanásia, suicídio assistido, valor da vida humana, valor da saúde pública, metodologias em bioética).

Para contato formal é necessário saber inglês e apresentar um ensaio de até 6 páginas redigidas sobre o assunto de seu interesse (problema e ideia central, objetivos, desenho da pesquisa ou passos do estudo, argumentos (iniciais) e objeções/alternativas). Sugere-se, para a produção e forma do ensaio, seguir os passos que estão no livro de WESTON, A. A arte de argumentar, Lisboa, Gradiva, 2005, e, para o conteúdo do ensaio em ética aplicada, fazer revisão de literatura atualizada com base em PUBmed e em Revistas de bioética de alto padrão (veja no link abaixo), além de livros filosóficos relevantes ao tema, se houver.

Há concorrência de projetos que abordem problemas, temáticas ou autores de maneira conceitual e argumentativa (analítica), tratando de um tópico filosófico específico (não serão aceitos projeto estritamente de interpretação de autores ou sistemas, desligados de problema específico ou desenvolvimento teórico sobre o ponto). Propostas em ética aplicada e bioética devem destacar com clareza: aspectos factuais (por exemplo, informações relevantes), valorativos (por exemplo, princípios e avaliações morais), e prático-normativos (por exemplo, normas gerais, leis, políticas públicas, protocolos profissionais ou ações justificáveis).


Revistas de bioética: https://bioethics.georgetown.edu/2015/03/top-200-most-cited-bioethics-articles-published-since-2009/
http://lattes.cnpq.br/2585330510002189

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Teoria Ética

Draft 1 -- Teoria Ética

Um dos instrumentos ao alcance dos bioeticistas é a teoria ética. Uma teoria ética é uma teoria sobre a natureza e a lógica dos conceitos morais. Ao contrário de uma teoria moral, a teoria ética não inclui entre seus postulados nenhum princípio moral substantivo. Que devemos aumentar o bem estar geral é um princípio moral substantivo, e faz parte então da teoria moral. Que juízos morais são necessariamente universalizáveis (valem para todas as situações idênticas em suas propriedades descritivas) é um princípio meramente lógico, e faz parte da teoria ética. Tal teoria deve desenvolver a lógica do raciocínio moral. 

Tal lógica tem duas regras, a (citada acima) universalizabiidade (U) e a prescritividade (P) de juízos normativos. P exige que não haja inconsistência entre o juízo universal (como o juízo moral sobre o que devo fazer em tal situação) e o juízo particular a que dou assentimento pratico. U exige que o juízo moral possa ser querido universalmente, ou seja, ser querido por nós em todas as posições afetadas como se fossem as nossas posições. As prescrições resultantes da aplicação desta lógica aos fatos de qualquer situação moral são as prescrições a que pensadores morais racionais chegariam ao deliberarem adequadamente, e, neste sentido, são prescrições objetivas. 



* * *
O filósofo Harry Gensler escreve que se tornou um aficionado no estudo da regra de ouro depois de ouvir uma palestra de Hare e ler seu livro Freedom and Reason duas vezes na mesma semana. Ele, como Hare, pensa que há uma lógica para os debates morais, e que a universalizabilidade é seu componente central.

A Regra de Ouro (Trate os outros apenas como você aceita ser tratado na mesma situação) ordena consistência. Ela exige um ajuste entre meu ato em relação ao outro e meu desejo sobre como ser tratado na mesma situação dele. A regra de ouro não substitui outras normas morais ou dá todas as respostas. Ela não diz o que fazer (e assim não ordena más ações se temos maus desejos). Ao invés, ela proíbe uma combinação inconsistente. Não combinar:
(1)   “Fazer algo a outra pessoa” e (II) “Não quero que isto seja feito a mim na mesma situação”. (2013:.2)

* * * 


Só faremos boa bioética (e boa ética prática em geral) se não formos relativistas, já que prescrições morais objetivas não dependem do nosso assentimento ou de nossa sociedade, e servem de padrão para criticarmos decisões subjetivas nossas ou de nossa sociedade. Mas o raciocínio moral puro, que se baseia só na lógica (a lógica das prescrições universais) e nos fatos (os fatos naturais presentes em uma dada situação), não é o raciocínio moral completo, e não deve ser usado senão em momentos de calma reflexão, com o devido acesso aos fatos, e cuidadosa ponderação sobre cursos alternativos de ação, o que não é o caso nas nossas deliberações e ações cotidianos sob estresse. 

Sob estresse usamos um raciocínio que inclui normas morais gerais e disposições da vontade (traços de caráter) - um raciocínio intuitivo -, e devemos usar tal mecanismo, pois do contrário muito provavelmente tomaremos más decisões. Porém, para justificar estas normas e disposições, para adjudicar entre normas em conflito, e para solucionar casos novos, só apelando para o nível crítico, em que só entram fatos e lógica no input. A normatividade será o resultado.

Mas a ética não depende da religião? Não, ela não depende. A religião também tem o ônus de explicar e justificar por que dada ação deve ser aprovada e praticada, com a mesma lógica do raciocínio moral acima. Se não se retira da moral toda base racional, toda sua força motivacional e lógica próprias (o que inclui operacionalizar a fala e o pensamento em que nos colocamos no lugar as pessoas afetadas pelas nossas ações de modo relevantemente prático), e de Deus, toda razoabilidade. (Ele passaria de um ser razoável que entende as razões para se ditar uma certa norma a um ser que age segundo seu bel prazer).


Se nós não separamos moralidade e vontade divina arbitrária, “o único conceito da vontade divina que ainda nos restaria teria de fazer das propriedades da ambição de honra e de domínio, ligadas às imagens terríveis do poderio e da vingança, o fundamento de um sistema dos costumes exatamente oposto à moralidade”. (Kant, 2007, p. 89)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Russ Shafer-Landua sobre metaética e Arbitrariedade

Cap. 8 – Arbitrariedade
O ceticismo garante que a moralidade não tem embasamento e se assenta em fundamentos arbitrários (= que não são sustentados suficientemente por boas razõe). Como já vimos, para o niilismo nada é exatamente correto ou bom moralmente, pois tais adjetivos não são como outros adjetivos reais (vulcânico, líquido, angular etc.), são conceitos para crenças humanas (não se deve matar é algo arbitrário neste sentido de não ser algo real, mas irreal).

Já o Subjetivismo e o Relativismo dão algum espaço para obrigações morais, mas tais obrigações variam de pessoa para pessoa ou de sociedade para sociedade, pois o que é certo ou errado é como a cor favorita de alguém, ou seja, em essência, é algo arbitrário, e isto, para Shafer-Landau, dá licença mesmo aos mais terríveis tipos de comportamento, já que são os gostos e desgostos de cada um (ou de cada sociedade) que embasam a moral.

Para o relativismo os gostos dos indivíduos são avaliados por um padrão acima deles, mas tal padrão é a sabedoria cultural que prevalece em dada sociedade, ou o consenso social, e não há base para avaliar e criticar tal coisa. Qualquer que seja tal consenso, ele estará certo, o que significa, isto é o que dá o embasamento, e isto é algo para o qual não se precisa apresentar boas razões independentes.

O Objetivismo elimina a arbitrariedade reivindicando que tanto os gostos individuais quanto os consensos sociais básicos devem passar pelo escrutínio racional, em especial, que os padrões convencionais podem ser falsos ou verdadeiros segundo razões que não se reduzem ao gosto individual ou consenso social que os endossa. Por exemplo, tome o ódio aos homossexuais, a homofobia. Há quem odeia a homossexualidade simplesmente porque odeia, porque é seu gosto. Há quem o faça porque sua cultura sempre reforçou tal sentimento, e isto torna seu ódio correto. Mas ambas as coisas para o objetivismo estão sujeitas à avaliação de que tal atitude pode ser realmente errada, independente dos gostos e desgostos. A tradição não tem papel importante como o tem no Subjetivismo e no Relativismo. O mesmo para a discriminação das mulheres que aceitam papéis subordinados: isso pode ser apenas sinal mais de uma boa doutrinação e manipulação feita pelos homens do que de aceitação por parte delas.

Assim, enquanto para o Niilista não há boas razões independentes para se adotar certa ação, e para o Subjetivista e o Relativista as boas razões são aquilo que os seres humanos endossam, para o Objetivista “a melhor razão para se adotar um padrão é sua verdade”, e verdade é algo que não depende da opinião, mas algo que serve para julgarmos a opinião.

Logo, é possível escapar da arbitrariedade apenas se o Objetivismo ético for verdadeiro.

* * * *
1 - Tente defender o ceticismo defendendo o ponto principal do objetivista sem abandonar a posição cética.
2 - Tente atacar o objetivismo atacando-o do mesmo modo que ele ataca o cético.
3 - Conseguiu? O que resultou disto, em sua opinião? Há outros pontos a apresentar?

Shafer-Landau sobre metaética e dogmatismo.

6. Dogmatismo

Shafer-Landau tem certeza que não é o objetivismo ético, mas sim o ceticismo, que é a concepção que permite o maior espaço para o dogmatismo e a intolerância. 

Normalmente objetivistas são arrogantes (talvez eu, por exemplo). E céticos são gente fina, muito tolerantes (o Zé Maria, por exemplo). 

Mas, pensando bem, nos sugere Shafer-Landa, há ao menos dois problemas neste cenário: o objetivismo ético não autoriza por si só, a arrogância (os matemáticos acreditam em verdades matemáticas, e isso não autoriza serem arrogantes e intolerantes; eles em geral também são gente fina). 

Como na ciência, o objetivismo assume que na ética tentamos registrar os contornos de uma realidade maior, que é independente de nossas opiniões subjetivas ou de nossos costumes culturais, uma realidade moral. 

É a realidade o que gera a sensação de maravilha, mistério e enormidade da tarefa de pensar e conhecer o mundo.

O Niilista já sabe de antemão que nada é certo ou errado moralmente, seja o que for que seja defendido. Com isso, qualquer proposta dogmática está de antemão rejeitada. Ótimo! Mas qualquer proposta em favor da tolerância, da liberdade, da auto limitação também estarão de antemão rejeitados. Nada bom... O erro do dogmatismo não é um erro moral, porque não existe tal coisa, o acerto da mentalidade aberta e tolerante não é acerto moral, porque não existe tal coisa.

Os Subjetivistas sustentam que cada indivíduo é a medida da verdade moral, logo, há pouco espaço para erro (talvez quando um desejo conflita com outro, ou quando há crenças falsas). Se nós aprovamos individualmente uma ação, nós nunca estaremos errados.

Os Relativistas Sociais permitem um pouco mais mais de espaço para o erro, pois agora, não só existe o certo e o errado, mas ele não depende de cada indivíduo, que pode não captar ou praticar o que a sua sociedade realmente pensa acerca do que é certo e errado. Mas se ele estiver bem antenado com sua sociedade, haverá também pouco espaço para o erro, e a autoconfiança e dogmatismo dependerão então desta sintonia. (A sociedade decide? Hum, nada bom, ainda que eu sempre encontre chineses que não veem nada de mau nisso, e o Zé Maria vive me dizendo que o individualismo liberal é coisa da sociedade burguesa em que vivo.)

Mas vejam: Os objetivistas, como eu e o Shafer-Landau, são os que dão o maior espaço para a possibilidade de erro, pois não é nem o indivíduo nem a sociedade que definem ou estabelecem a moralidade, a verdade não é construção humana, e por isso, será mais difícil de descobrir ou discernir. Haverá menos autoconfiança e menos dogmatismo nesta concepção, se bem compreendida, do que nas céticas.

"Não há melhor antídoto contra nossa arrogância e soberba que o reconhecimento de que nós não somos os autores da lei moral". (p. 29).

* * * * *
1 - Em que sentido há menor chance de erro nas posições niilista, subjetivista e relativismo do que na objetivista?
2 - Em que sentido há maior chance de acerto?
3 - Dá para pensar o oposto? Com que argumento e exemplo?

Russ Shafer-Landua sobre metaética e tolerância.


Cap. 7 – Tolerância

A maioria dos estudantes do ensino superior pensam que a posição padrão na filosofia moral de hoje é o ceticismo ético, mas não pensa assim por causa de um argumento sólido, mas em grande parte porque é estranho pensar que juízos morais poderiam ser objetivos. 

Mas entre os argumentos endossados, está é o argumento a partir da tolerância. 

Uma primeira versão porém parte do próprio ceticismo (1): Se o ceticismo é verdadeiro então devemos ser tolerantes com todas as visões morais; ora, o ceticismo é verdadeiro; logo, devemos ser tolerantes com todas as visões morais.

Porém, (i) este argumento assume como verdadeiro algo que precisaria ser demonstrado, que o o ceticismo ético é verdadeiro. Assim, ele não é um argumento em prol do ceticismo, mas a partir dele, e não mostra por exemplo, que o ceticismo é o único candidato compatível com a tolerância. (Imagine substituir ceticismo por objetivismo, o argumento também funciona, ao menos se entre os juízos que não dependem da nossa opinião ou do consenso social, estiver um que diga que devemos ser tolerantes).

(2) Uma outra versão, mais forte, do argumento é: quem adota a tolerância deve ser eticamente cético; nós devemos adotar a tolerância; logo, devemos ser céticos. Uma variação: Se o objetivismo fosse verdadeiro, algumas visões seriam inferiores a outras e estaria ok tratá-las assim; isso contraria a tolerância; logo, o objetivismo não adota nem defende a tolerância. 

Tudo isso porém é um equívoco, pois não se pode concluir, da ideia de que algumas visões são moralmente ruins ou inferiores, que está tudo bem em tratá-las como inferiores (isso é um non sequitur!). Por que? Porque confundem-se aqui duas perguntas diferentes. A primeira, uma visão moral de alguém ou de uma sociedade é correta (ou justa, ou adequada, ou boa)? A segunda, se ela não o é for, o que devemos fazer a respeito? (Defender que a mutilação de meninas é errada não implica endossar o envio dos marines americanos para que invadam os países em que isso está ocorrendo!)

O objetivismo ético está comprometido apenas com a tese de que o certo e o errado não dependem exclusivamente de nossos gostos individuais ou de nossas tradições sociais e arranjos sociais.
Mas com isso, os objetivistas podem embasar muito fortemente a tolerância, por exemplo, como um valor objetivo independente.

Mas há mais coisa: o ceticismo ético é incompatível com a tolerância, se bem compreendido: p. 32 # 1: Se o ceticismo está certo, então nenhuma recomendação moral é verdadeira (nihilismo), ou independente dos gostos individuais (subjetivismo) ou coletivos (relativismo); logo, a recomendação de tolerar ou é uma ficção (N), ou é uma das opiniões contingentes nossas ou de nossas sociedades. Mas isso não será uma boa notícia para quem realmente valoriza a tolerância, por exemplo, luta por ela em lugares onde ela não existe.
Se toda recomendação é falsa (teoria do erro), aquela que diz para tolerar também é falsa, e está ao par com a recomendação de ser intolerante; se o certo e o errado estão nos olhos de quem vê, quem vê a intolerância como certa não estará fazendo nada de errado, ao contrário, estará inclusive fazendo seu dever; e se adotamos o relativismo social, a tolerância só será valiosa nas sociedades que a tornaram um valor fundamental, mas não naquelas que reprimem, perseguem, queimam livros de opositores (e opositores). Numa sociedade intolerante, você deve ser intolerante para cumprir seu dever, caso o relativismo seja verdadeiro.

Os céticos em geral consideram a tolerância algo bom, mas só o objetivismo dá embasamento seguro a tal valor. Por que? Porque a tolerância não dependerá apenas do gosto individual ou do consenso social, e caso o indivíduo ou sociedade sejam intolerantes, pior para eles, pois estarão errados moralmente. É melhor abandonar a ideia de que o certo e o errado dependem, como palavra final, do indivíduo ou da sociedade, concluir Shafer-Landau.

"Se você acredita que todos são detentores do direito ao respeito, a certa parcela de liberdade pessoal, e a um conjunto básico de direitos humanos, então seria melhor você abandonar a ideia de que os indivíduos ou sociedades detêm a palavra final na ética. O objetivismo pode confiantemente sustentar essas proteções morais centrais. O ceticismo não pode". (p. 33)