terça-feira, 28 de dezembro de 2010

O problema pessoal do sentido da vida - parte II - por Desidério Murcho

O problema pessoal do sentido da vida (parte II)
Desidério Murcho
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O problema intuitivo do sentido da vida é um problema pessoal. Não é um problema parecido com a questão de saber se há vida noutros planetas, ou com a questão de saber qual é a composição da atmosfera de Júpiter. O que se procura não é realmente uma resposta ao problema do sentido da vida humana em geral, mas sim ao problema do sentido da minha vida. É o tipo de inquietação que me assaltava quando eu tinha 15 anos, e que inquieta muitos jovens; ou que inquieta pessoas que enfrentam problemas difíceis na sua vida de adultos. Algumas pessoas que passaram anos a ganhar cada vez mais dinheiro parece terem a tendência para se preocupar com o sentido da vida delas quando os negócios correm mal. Outras, quando morre um ente querido, ou quando descobrem que têm uma doença terminal. Não tenho qualquer base científica para sustentar estas afirmações; provavelmente, algumas das pessoas que se preocupam com o problema, terão um interesse genuíno no verdadeiro problema, e não um interesse meramente interesseiro no sentido da sua própria vida. Mas também não penso que estas idéias, que tenho em resultado da minha observação assistemática, sejam completamente descabidas.
Quando olhamos para o problema do sentido da vida como um problema pessoal, é difícil ter a lucidez necessária para compreendermos o problema geral. O que queremos é responder à angústia que estamos a viver. Uma pessoa nestas circunstâncias dificilmente precisa de uma tentativa académica para tratar o tema. O que uma pessoa nestas circunstâncias precisa é de ser apoiada e encorajada; precisa de amizade e de um olhar de compreensão, e não de uma lição de filosofia. Uma pessoa nestas circunstâncias não compreende o verdadeiro problema do sentido da vida — esta é a minha convicção. As razões pelas quais eu penso isso são as que desenvolvo de seguida.
Se eu disser a alguém muito preocupado com o sentido da vida que uma vida que acrescente valor ao mundo faz sentido, desde que os valores sejam objectivos, esta resposta é insatisfatória. Essa pessoa quer uma resposta para a vida dela e uma resposta que ela possa compreender. A distinção entre valor objectivo e subjectivo de pouco lhe vale, se nem sequer compreende bem a distinção. A pessoa quer uma resposta pessoal a um problema pessoal — e não uma resposta universal que por inerência devia responder também ao seu problema.
É por este motivo que as respostas religiosas são em geral mais apelativas. Porque nas respostas religiosas a própria pessoa é importante; há um Deus que a vê e a escolhe, que lhe concede a vida eterna e a bem-aventurança, e não apenas um conceito impessoal de valor objectivo. Claro que se perguntarmos a essa pessoa, entretanto convertida, por que razão há-de Deus dar sentido à nossa vida, já que também isso não se compreende bem, obtemos uma resposta evasiva: Deus é o mistério, é o incompreensível, nós somos demasiado limitados para compreender os seus desígnios e a sua natureza. De facto, parece que somos até demasiado limitados, pelo menos alguns de nós, para compreendermos um artigo da Intelecto sobre o sentido da vida, quanto mais Deus. E é agora que a questão interessante se levanta: incompreensão por incompreensão, por que razão é a resposta religiosa melhor do que a filosófica?
Quero deixar para já esta pergunta por responder. Vejamos outra rota de incompreensão e de insatisfação. A resposta ao sentido da vida que evoca valores objectivos é realmente sofisticada e compreende-se que não seja por isso muito apelativa, apesar de também a resposta religiosa ser incompreensível. Mas também uma resposta como a de Peter Singer — que nem sequer acredita na objectividade do valor — é incapaz de satisfazer o nosso interlocutor angustiado com o sentido da vida. A resposta de Singer (e a minha própria, mas a um nível mais térreo e menos abstracto) consiste em dizer a essa pessoa para olhar para o mundo à sua volta com olhos de ver. E que medite no sofrimento dos que morrem à fome, dos que labutam diariamente para sobreviver, dos que sofrem as mais vis injustiças, do que são estropiados, privados dos seus direitos, etc. Mas quando se diz que uma vida terá sentido desde que possa servir para trazer algum bem a este mundo, desde que possa servir para ajudar alguns dos que estão em circunstâncias muito piores do que nós — quando se diz isto, o nosso interlocutor não se deixa impressionar. Tudo isso é verdade, há imenso sofrimento no mundo, mas a regra básica da psicologia humana é esta: um ardor no meu dedo mindinho é mais importante para mim do que um milhar de pessoas a morrer à fome a 5 Km de distância. Uma inquietação na minha alminha é mais importante do que as pessoas todas que estão à minha volta e que eu podia ajudar de várias maneiras. É assim que somos. O que não quer dizer que tenhamos de ser assim.
De modo que esta resposta, a um nível mais térreo, também não satisfaz nada o nosso interlocutor angustiado com o sentido da sua vida, com as suas dores de alma. O que ele quer é o impossível. Quer uma resposta simples e rápida, que dê sentido universal à sua vida, mas que ao mesmo tempo lhe fale a ele em particular e não a todos os seres humanos em geral e — sobretudo — não quer dúvidas nem ter de fazer grande coisa. Se tiver de fazer alguma coisa, terá de ser algo como um contacto directo com Deus. Não será capaz de dar 200 contos para ajudar uma vítima da fome ou da miséria, ou para ajudar um estudante pobre inteligente que de outro modo terá de deixar de estudar. Mas será capaz de gastar 200 contos numa peregrinação algures, ou num quadro com uma boa representação de Deus, ou numa viagem para ir ouvir e ver o Papa.
Esta atitude compreende-se. O que o nosso interlocutor quer é resolver a sua vida; não quer resolver a vida dos outros. E por mais que lhe possamos dizer que ajudar os outros é a melhor maneira de dar sentido à sua vida, isso é demasiado rebuscado para ele. Ele quer falar directamente com a gerência para ter a certeza que é promovido, não quer apostar na possibilidade de promoção sendo um trabalhador honesto e altruísta, que ajuda os seus colegas.
Nenhuma das 3 respostas que podemos dar ao problema do sentido da vida responde ao problema pessoal do sentido da vida. Isto não é uma deficiência dessas respostas. Resulta antes do facto de o problema pessoal do sentido da vida ser um falso problema, um problema que não tem realmente solução. É apenas uma inquietação emocional vaga e pouco lúcida, que costuma atacar os seres humanos quando estão numa situação emocional difícil — mas que é tranquilamente esquecida quando tudo corre bem na vida.
As 3 respostas que podemos dar, e as razões pelas quais são sempre insatisfatórias para o angustiado em busca da salvação, são as que se seguem.
Em primeiro lugar, podemos procurar mostrar que acrescentar valor ao mundo dá sentido à nossa vida porque há valores objectivos. Esta resposta não é satisfatória porque é demasiado abstracta. É difícil de compreender. Implicaria estudar filosofia seriamente pelo menos durante alguns meses.
Em segundo lugar, podemos mostrar que as finalidades últimas não são muito importantes para a nossa felicidade. Afinal, se a minha vida for feliz, tudo o que faço para preservar essa felicidade, e para a aprofundar e talvez partilhar, faz todo o sentido — tal como faz sentido dar-me a um trabalho imenso para ir passar férias para muito longe. Toda a viagem e despesa faz sentido porque aquelas férias naquele sítio são importantes para mim, e não há mais nada a dizer que lhe possa dar realmente valor. E isso chega. Mas esta resposta não satisfaz quem se defronta com o problema pessoal do sentido da vida porque essa pessoa está emocionalmente num estado que não lhe permite fruir a amizade, as férias, o amor, uma tarde chuvosa de leitura empolgante. Essa pessoa quer algo tão importante que lhe devolva o gosto pela vida. Mas:
Em terceiro lugar, podemos mostrar que, independentemente de os valores serem ou não objectivos, e independentemente de termos ou não gosto pela vida, há infelizmente sempre muitas pessoas há nossa volta que podemos ajudar decisivamente, apenas com algum esforço da nossa parte. Mesmo que isso não nos dê satisfação a nós, pelo menos dá satisfação a alguém. Esta resposta também não interessa nada ao nosso trágico angustiado, claro. Porque o que ele quer é retomar o gosto pela vida. E não quer obter tal coisa através da via inesperada do altruísmo. Não. Quer que Deus lhe fale directamente ao ouvido e lhe diga que a vida dela é muito, muito, muito importante, só porque é uma vida humana e só porque é uma pessoa única. Acho que tenho más notícias. Nenhuma vida humana é em si algo que tenha mais valor do que tem a vida de um símio — excepto se fizermos coisas que nenhum símio pode fazer, como trazer algum valor ao mundo e fazer bem a alguém no mundo.
Não quero deixar o leitor com uma nota de pessimismo. Quero dizer-lhe que há imensas coisas que estão nas suas mãos. Nomeadamente, as vidas das pessoas que estão à sua volta. E a criação de algo que seja bom para alguém. E que se por acaso enfrenta o problema pessoal do sentido da vida, do ponto de vista emocional o melhor a fazer talvez seja pensar um pouco menos em si e um pouco mais nos que estão à sua volta. Poderá descobrir, com algum espanto, que não tinha gosto pela vida porque a vida não tem gosto quando só olhamos para nós próprios e nos esquecemos dos nossos semelhantes.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Problema Pessoal do Sentido da Vida (parte I) - por Desiderio Murcho

O objectivo destas páginas é duplo. Por um lado, mostrar a plausibilidade da seguinte hipótese: quando o sentido da vida é encarado como um problema pessoal, é mal compreendido. Não disponho de estudos científicos empíricos que possam sustentar esta hipótese. Por isso defendo apenas que é uma hipótese plausível; talvez as coisas se passem como esta hipótese diz que são, ou talvez não.
Por outro lado, quero mostrar que, porque o problema pessoal do sentido da vida é mal compreendido, nenhuma resposta razoável que possamos dar é satisfatória. Mas isto acontece não porque as respostas são más, mas porque o problema pessoal do sentido da vida é um falso problema.
Esta reflexão é um complemento ao artigo "O sentido da vida" , publicado na Intelecto. Nesse artigo, passo em revista algumas das respostas religiosas ao problema do sentido da vida e defendo que a vida faz sentido na exacta medida em que houver valores objectivos. Verifiquei, todavia, que este artigo era demasiado "académico", no sentido em que não era o tipo de artigo que pudesse responder às ansiedades de quem se defronta realmente na sua vida com o problema do sentido da vida. Acho esta situação irónica e típica de um certo tipo de academismo estéril, do qual eu no entanto sempre me esforcei por me afastar.
Típica porque a regra de ouro do academismo estéril é nunca tratar de tema algum que possa ser compreendido pelo público culto que ainda não se deixou hipnotizar pela prosa soporífera dos universitários; e caso esta regra seja quebrada, é então necessário tratar do tema de tal modo que o público culto não consiga entender, nem encontre as respostas de que estava à espera de encontrar. E irónica porque o tema do sentido da vida é visto com maus olhos precisamente por ser demasiado popular, algo que toda a gente pensa constituir a preocupação principal da filosofia. E ali estava eu a escrever um texto que não agradava nem a gregos nem a troianos: nem aos académicos por ser demasiado popular, nem ao público em geral, a quem a Intelecto se destina, por não ser suficientemente popular.
Há boas razões para a melhor tradição filosófica procurar evitar a imagem do filósofo como um guru. Os gurus são figuras tudo menos filosóficas, pois as suas sentenças oraculares não são para ser discutidas e avaliadas, mas antes seguidas cegamente pelos acólitos. Mas penso que é preciso mostrar que é possível falar ao público culto e responder às suas preocupações sem cair no dogmatismo dos gurus. Pessoas como Bertrand Russell fizeram-no, de forma admirável — valendo-lhe até um prémio Nobel — e, mais recentemente, Peter Singer fê-lo também, na obra "How Are We to Live?". Mas penso que é preciso insistir.
Penso que é preciso insistir em grande parte por causa da infeliz divisão entre duas formas radicalmente diferentes de fazer e ensinar filosofia: a filosofia analítica e a filosofia continental. Demasiadas vezes as pessoas pensam, erradamente, que a filosofia analítica está muito mais do lado do academismo estéril — "escolástica" é a palavra que se ouve e que já me deitaram à cara tantas vezes — do que a filosofia continental. Penso que isto é falso. A ilusão, todavia, é compreensível. Os textos iniciáticos de Heidegger, por exemplo, ou os textos trágicos de Kierkegaard ou os textos panfletários e angustiados de Nietzsche, podem responder a algumas das inquietações mais imediatas do grande público. Mas este início promissor — promissor para o grande público que espera resposta às suas inquietações — é rapidamente atraiçoado, por dois motivos.
Em primeiro lugar, os textos destes autores são extraordinariamente opacos, difíceis de compreender e muito situados. Heidegger é um representante típico do académico que escreve para outros académicos. Nietzsche e Kierkegaard, não — mas escrevem com a cabeça de tal modo metida no seu próprio tempo e nas suas próprias preocupações pessoais, que sem uma preparação adequada, o leitor comum pouco ou nada compreende destes escritores, apesar de ficar com a sensação de que eram pessoas muito angustiadas, figuras trágicas com um interesse humano inegável.
Em segundo lugar, o trabalho académico que se exige aos estudantes e que os académicos realizam com base nestes autores é regra geral impenetrável ao grande público. E, regra geral, o batalhão de intérpretes e exegetas da obra destes grandes filósofos pouco mais fazem do que repetir o que eles disseram por outras palavras ou dissecar os pormenores mais irrelevantes aos olhos do grande público, deixando sempre para depois as ideias centrais que são tão apelativas nestes autores. É um pouco o mesmo do que acontece com o estudo de "Os Maias" de Eça de Queirós entre os académicos e na escola secundária: à força de tornarem sério e académico o estudo da obra, acabam por estripá-la do seu interesse principal, domesticando uma das mais poderosas e bem dirigidas críticas à sociedade portuguesa — críticas que infelizmente continuam actuais.
Penso que há uma alternativa ao guru, e ao texto trágico e grandioso, que apresenta o seu próprio autor como uma figura teatral. A alternativa é responder com clareza e frontalidade às preocupações do grande público e mostrar como o pensamento sistemático e consequente nos pode ajudar a compreender melhor o que é para nós importante compreender. E procurar oferecer o resultado do nosso melhor esforço de compreensão ao grande público é justo; afinal, é o grande público que nos paga o ordenado.
 

Desidério Murcho

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domingo, 26 de dezembro de 2010

Deus Caritas Est

Em época de Natal (uma festa "cristã" religiosa) e na semana antes da festa de Ano Novo (uma festa "pagã" secular) costumo ler e meditar sobre um texto religioso. Vou compartilhar minhas reflexões neste blog, apesar de ser dedicado especialmente à ética, e não à religião. Ainda sou religioso, apesar de flertar bastante com o humanismo e ateísmo secularistas, mas como religioso prefiro adotar um tipo de kantismo, ou seja, de redução da religião à moralidade (e da teologia à antropologia ou psicologia - Feurbach), o que para mim explica e jusitifica postar escritos sobre religião num blog para tratar de ética.

Neste ano, exatamente porque me reaproximei do cristianismo católico, minha antiga tradição espiritual, escolhi ler a encíclica Deus Caristas Est (Deus é Amor), do Papa bento XVI. Netsa semana postarei minhas imprssões e críticas.

Um primeiro comentário:

li a encíclica e posso dizer que no geral gostei bastante, é interessante encontrar um texto em que a idéia central do cristianismo, o amor a Deus e ao  próximo, é bem apresentada junto com outras idéias básicas do catecismo "antigo" (criação, história da salvação, cruz e ressurreição, fé bíblica, tradição da
igreja, liturgia, catequese e caridade). Há tempos venho lido sobre outras tradições espirituais em textos que se atém ao essencial delas (como no Budismo), que nem imaginava mais tal resumo do essencial em minha própria tradição! Mas me chama a atenção como tal catecismo "antigo" vem apresentado
"contemporaneamente" num quadro de claro diálogo filosófico com a razão e a ciência: em quase nenhuma parte encontro uma espécie de religiosidade ingênua (em todo o texto Deus, seu silêncio, e o mistério do mal/sofrimento no mundo, que são os principais argumentos contra a fé religiosa, assim como uma suposta
alienação sexual e social promovidas pela tradição cristã e eclesial, q é um poderoso argumento contra o cristianismo em particular - pois bem, em todo o texto há um tipo de articulação que não nega que haja alguma verdade nestas objeções mas que apresenta os conteúdos religiosos como resposta também moderna e contemporânea a estas objeções! Por exemplo, não se nega que o "silêncio" de
Deus seja um problema para o ser humano, ao contrário, sugere-se que podemos ser
como Job, que reclamava disto, ou como Cristo na cruz clamando "por que me abandonastes?", - o que é bem mais palatável à cultura filosófica moderna do que tentar mostrar que Deus se manifesta realmente, fala conosco, faz milagres, etc - mas por outro lado, se apresenta a própria existência do mundo (a criação) e a
experiência cristã como revelações ou sinais de um tipo de conhecimento (indireto?) de Deus e como abertura para um tipo de transcendência que pode tanto explicar melhor a criação quanto apoiar psicologicamente os seres humanos "ansiosos" por algo mais - o que é palatável também às pessoas religiosas que buscam apoio na religião. Interessante que o texto é bem mais palatável ao
primeiro grupo - os modernos - do que ao segundo - os religiosos tradicionais, o que mostra que o autor não sucumbiu ao populismo religioso e espiritual em voga.

Apesar desta primeira imprssão positiva, há vários aspectos críticos a discutir, o que farei oportunamente.

Abs,

Alcino Eduardo Bonella

A Vida Ética segundo Peter Singer

O texto abaixo, retirado de um livro de Peter Singer, explica o nome do Blog e suas intenções principais: divulgar a ética prática e favorecer a discussão sobre seus temas principais.

Como havemos de viver?
Peter Singer
Universidade de Princeton

Há ainda alguma coisa pela qual viver? Haverá algo a que valha a pena dedicarmo-nos, além do dinheiro, do amor e da atenção à nossa família? Falar de "algo pelo qual viver" tem um certo travo vagamente religioso, mas muitas pessoas que não são absolutamente nada religiosas têm uma sensação incómoda de poderem estar a deixar escapar qualquer coisa básica que conferiria às suas vidas uma importância que de momento lhes falta. E estas pessoas também não têm qualquer compromisso profundo com uma cor política. Ao longo do último século, a luta política ocupou frequentemente o lugar consagrado à religião noutros tempos e culturas. Ninguém que reflicta acerca da nossa história recente pode agora acreditar que a política, por si só, bastará para resolver todos os nossos problemas. Mas para que outra coisa poderemos viver? Neste texto, dou uma resposta. É tão antiga como o alvor da filosofia, mas tão necessária nas circunstâncias actuais como sempre foi. A resposta é que podemos viver uma vida ética. Ao fazê-lo, passaremos a integrar uma vasta tradição que atravessa culturas. Além disso, descobriremos que viver uma vida ética não constitui um sacrifício pessoal, mas uma realização pessoal.
Se conseguirmos alhear-nos das nossas preocupações imediatas e encarar o mundo como um todo e o nosso lugar nele, veremos que existe algo absurdo na idéia de que as pessoas têm dificuldade em encontrar por que viver. Afinal, há tanto que precisa de ser feito. Quando este livro estava prestes a concluir-se, as tropas das Nações Unidas entraram na Somália numa tentativa de assegurar que os alimentos chegavam às populações famintas. Apesar de esta tentativa ter corrido muito mal, constituiu, pelo menos, um sinal positivo de que as nações ricas estavam preparadas para fazer alguma coisa acerca da fome e do sofrimento em áreas distantes. Podemos tirar as devidas lições deste episódio, de modo a que as tentativas futuras sejam mais bem sucedidas. Talvez estejamos no início de uma nova era na qual não nos limitaremos a ficar sentados à frente dos nossos televisores a ver crianças morrer e depois continuar a viver as nossas vidas abastadas sem sentir qualquer incongruência. Mas não são apenas as grandes crises dramáticas e com honras de noticiário que requerem a nossa atenção: há inúmeras situações, numa escala mais reduzida, que são tão horríveis e evitáveis como as maiores. Por imensa que esta tarefa se nos afigure, trata-se apenas de uma das muitas causas igualmente urgentes às quais se podem dedicar as pessoas que buscam um objetivo digno.
O problema é que a maior parte das pessoas tem somente uma idéia vaguíssima do que poderá ser viver uma vida ética. Compreendem a ética como um sistema de regras que nos proíbem de fazer coisas. Não a entendem como base para pensar acerca do modo como havemos de viver. Essas pessoas levam vidas eminentemente centradas nos seus interesses, não por terem nascido egoístas, mas porque as alternativas parecem inaptas, embaraçosas ou simplesmente inúteis. Não conseguem descortinar um modo de provocar impacto no mundo, e mesmo que conseguissem, para que se incomodariam? Não encarando uma conversão religiosa, não vêem nada por que viver que não seja os seus próprios interesses materiais. Mas a possibilidade de viver uma vida ética fornece-nos uma saída para este impasse. Essa possibilidade é o objecto da presente reflexão. Aflorar meramente esta possibilidade será suficiente para desencadear acusações de extrema ingenuidade. Alguns dirão que as pessoas são naturalmente incapazes de ser outra coisa que não egoístas. Os capítulos 4, 5, 6 e 7 abordam esta convicção, de várias formas. Outros afirmarão que, seja qual for a verdade acerca da natureza humana, a sociedade moderna ocidental há muito deixou para trás o ponto em que a argumentação racional ou ética conseguiria alcançar fosse o que fosse. A vida actual pode parecer tão louca que é possível perder a esperança de a melhorar. Um editor que leu o manuscrito deste livro indicou com um gesto a rua de Nova Iorque que se avistava da janela e disse-me que, ali em baixo, os condutores tinham começado a ignorar os semáforos vermelhos só porque sim. Como, dizia-me ele, pode esperar que o seu livro faça qualquer diferença, num mundo cheio de pessoas assim? Na verdade, se o mundo estivesse mesmo cheio de pessoas que cuidassem tão pouco da sua vida - quanto mais das vidas dos outros - nada haveria que se pudesse fazer e provavelmente a nossa espécie não andaria por cá muito mais tempo. Mas a ordem natural da evolução tende a eliminar os que são assim loucos. Pode haver uns quantos em determinada altura e não há dúvida de que as grandes cidades americanas albergam mais do que a sua quota-parte destes indivíduos. Mas o que é verdadeiramente desproporcionado é o destaque que este comportamento tem nos meios de comunicação social e na mente pública. É a velha história daquilo que faz a notícia. Um milhão de pessoas a fazer todos os dias alguma coisa que revele preocupação pelas outras não é notícia; um atirador furtivo num telhado, é. Este livro não ignora a existência de pessoas malévolas, violentas e irracionais, mas foi escrito na convicção de que as restantes não deverão viver as suas vidas como se todos as outras fossem sempre inerentemente, com toda a probabilidade, malévolas, violentas e irracionais.
De qualquer modo, e mesmo que esteja errado e as pessoas loucas sejam muito mais comuns do que creio, que alternativa nos resta? A demanda convencional do interesse próprio é, por razões que aduzirei num capítulo posterior, individual e colectivamente prejudicial. A vida ética constitui a alternativa mais fundamental à demanda convencional do interesse próprio. Decidir viver eticamente é simultaneamente mais ambicioso e mais poderoso do que um compromisso político do tipo tradicional. Viver uma vida eticamente reflectida não é uma questão de observar estritamente um conjunto de regras que determinam o que devemos e não devemos fazer. Viver eticamente é reflectir de uma forma particular sobre o modo como vivemos e tentar agir de acordo com as conclusões dessa reflexão. Se o argumento deste livro é sólido, não podemos viver uma vida não ética e permanecer indiferentes à quantidade imensa de sofrimento desnecessário que existe no mundo actual. Pode ser ingénuo esperar que um número relativamente pequeno de pessoas que vivem de uma forma reflectida, ética, possa revelar-se uma massa crítica capaz de alterar o clima de opinião acerca da natureza do interesse próprio e da sua relação com a ética; mas quando olhamos para o mundo e vemos a confusão que nele grassa, parece valer a pena conceder a essa esperança optimista a melhor hipótese possível de sucesso.
Todos os livros reflectem uma experiência pessoal, independentemente do número de camadas de ilustração que a filtram. O meu interesse pelo tema deste livro começou quando era estudante de pós-graduação na Universidade de Melbourne. O tema da minha tese de Mestrado foi "Por que devo ser moral?" A tese analisava esta questão e examinava as respostas a ela dadas pelos filósofos nos últimos dois mil e quinhentos anos. Concluí relutantemente que nenhuma das respostas era completamente satisfatória. Depois, passei vinte e cinco anos a estudar e a ensinar ética e filosofia social em universidades inglesas, norte-americanas e australianas. No início desse período, participei na oposição à guerra no Vietname. Isto forneceu o contexto ao meu primeiro livro: Democracy and Disobedience, acerca da questão ética da desobediência a leis injustas. O meu segundo livro, Libertação Animal, defendia que o tratamento que dispensamos aos animais é eticamente indefensável. Esse livro teve importância no nascimento e crescimento daquele que agora é um movimento mundial. Trabalhei nesse movimento não apenas como filósofo, mas também como membro activo de grupos empenhados na mudança. Estive envolvido, novamente tanto como filósofo académico como de formas mais quotidianas, numa variedade de causas com uma forte base ética: ajuda aos países em vias de desenvolvimento, apoio a refugiados, legalização da eutanásia voluntária, preservação dos espaços selvagens e problemas ambientais mais gerais. Tudo isto me possibilitou conhecer pessoas que doam o seu tempo, o seu dinheiro e por vezes grande parte das suas vidas privadas a uma causa de base ética; e deu-me um sentido mais profundo daquilo que é tentar viver uma vida ética.
Desde a redacção da minha tese de Mestrado, escrevi sobre a questão "Por que agir eticamente?" no capítulo final de Ética Prática e aflorei o tema da ética e do egoísmo em The Expanding Circle. Ao debruçar-me novamente sobre a relação entre ética e interesse próprio, posso agora recorrer a um passado sólido de experiência prática, assim como à investigação e a obras de outros estudiosos. Se me perguntarem por que devemos agir moralmente ou eticamente, poderei dar uma resposta mais ousada e positiva do que aquela que dei na minha tese anterior. Poderei apontar pessoas que escolheram levar uma vida ética e conseguiram ter impacte no mundo. Ao fazê-lo, investiram as suas vidas de um significado que muitas pessoas não crêem alguma vez conseguir alcançar. Como resultado, aquelas pessoas consideram que as suas vidas são mais ricas, mais satisfatórias, e mesmo mais empolgantes do que eram antes de elas terem decidido dessa forma.
Peter Singer
Tradução de Tradução de Fátima St. Aubyn
Prefácio de
Como Havemos de Viver?, de Peter Singer (Dinalivro, 2005).