segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O Problema Pessoal do Sentido da Vida (parte I) - por Desiderio Murcho

O objectivo destas páginas é duplo. Por um lado, mostrar a plausibilidade da seguinte hipótese: quando o sentido da vida é encarado como um problema pessoal, é mal compreendido. Não disponho de estudos científicos empíricos que possam sustentar esta hipótese. Por isso defendo apenas que é uma hipótese plausível; talvez as coisas se passem como esta hipótese diz que são, ou talvez não.
Por outro lado, quero mostrar que, porque o problema pessoal do sentido da vida é mal compreendido, nenhuma resposta razoável que possamos dar é satisfatória. Mas isto acontece não porque as respostas são más, mas porque o problema pessoal do sentido da vida é um falso problema.
Esta reflexão é um complemento ao artigo "O sentido da vida" , publicado na Intelecto. Nesse artigo, passo em revista algumas das respostas religiosas ao problema do sentido da vida e defendo que a vida faz sentido na exacta medida em que houver valores objectivos. Verifiquei, todavia, que este artigo era demasiado "académico", no sentido em que não era o tipo de artigo que pudesse responder às ansiedades de quem se defronta realmente na sua vida com o problema do sentido da vida. Acho esta situação irónica e típica de um certo tipo de academismo estéril, do qual eu no entanto sempre me esforcei por me afastar.
Típica porque a regra de ouro do academismo estéril é nunca tratar de tema algum que possa ser compreendido pelo público culto que ainda não se deixou hipnotizar pela prosa soporífera dos universitários; e caso esta regra seja quebrada, é então necessário tratar do tema de tal modo que o público culto não consiga entender, nem encontre as respostas de que estava à espera de encontrar. E irónica porque o tema do sentido da vida é visto com maus olhos precisamente por ser demasiado popular, algo que toda a gente pensa constituir a preocupação principal da filosofia. E ali estava eu a escrever um texto que não agradava nem a gregos nem a troianos: nem aos académicos por ser demasiado popular, nem ao público em geral, a quem a Intelecto se destina, por não ser suficientemente popular.
Há boas razões para a melhor tradição filosófica procurar evitar a imagem do filósofo como um guru. Os gurus são figuras tudo menos filosóficas, pois as suas sentenças oraculares não são para ser discutidas e avaliadas, mas antes seguidas cegamente pelos acólitos. Mas penso que é preciso mostrar que é possível falar ao público culto e responder às suas preocupações sem cair no dogmatismo dos gurus. Pessoas como Bertrand Russell fizeram-no, de forma admirável — valendo-lhe até um prémio Nobel — e, mais recentemente, Peter Singer fê-lo também, na obra "How Are We to Live?". Mas penso que é preciso insistir.
Penso que é preciso insistir em grande parte por causa da infeliz divisão entre duas formas radicalmente diferentes de fazer e ensinar filosofia: a filosofia analítica e a filosofia continental. Demasiadas vezes as pessoas pensam, erradamente, que a filosofia analítica está muito mais do lado do academismo estéril — "escolástica" é a palavra que se ouve e que já me deitaram à cara tantas vezes — do que a filosofia continental. Penso que isto é falso. A ilusão, todavia, é compreensível. Os textos iniciáticos de Heidegger, por exemplo, ou os textos trágicos de Kierkegaard ou os textos panfletários e angustiados de Nietzsche, podem responder a algumas das inquietações mais imediatas do grande público. Mas este início promissor — promissor para o grande público que espera resposta às suas inquietações — é rapidamente atraiçoado, por dois motivos.
Em primeiro lugar, os textos destes autores são extraordinariamente opacos, difíceis de compreender e muito situados. Heidegger é um representante típico do académico que escreve para outros académicos. Nietzsche e Kierkegaard, não — mas escrevem com a cabeça de tal modo metida no seu próprio tempo e nas suas próprias preocupações pessoais, que sem uma preparação adequada, o leitor comum pouco ou nada compreende destes escritores, apesar de ficar com a sensação de que eram pessoas muito angustiadas, figuras trágicas com um interesse humano inegável.
Em segundo lugar, o trabalho académico que se exige aos estudantes e que os académicos realizam com base nestes autores é regra geral impenetrável ao grande público. E, regra geral, o batalhão de intérpretes e exegetas da obra destes grandes filósofos pouco mais fazem do que repetir o que eles disseram por outras palavras ou dissecar os pormenores mais irrelevantes aos olhos do grande público, deixando sempre para depois as ideias centrais que são tão apelativas nestes autores. É um pouco o mesmo do que acontece com o estudo de "Os Maias" de Eça de Queirós entre os académicos e na escola secundária: à força de tornarem sério e académico o estudo da obra, acabam por estripá-la do seu interesse principal, domesticando uma das mais poderosas e bem dirigidas críticas à sociedade portuguesa — críticas que infelizmente continuam actuais.
Penso que há uma alternativa ao guru, e ao texto trágico e grandioso, que apresenta o seu próprio autor como uma figura teatral. A alternativa é responder com clareza e frontalidade às preocupações do grande público e mostrar como o pensamento sistemático e consequente nos pode ajudar a compreender melhor o que é para nós importante compreender. E procurar oferecer o resultado do nosso melhor esforço de compreensão ao grande público é justo; afinal, é o grande público que nos paga o ordenado.
 

Desidério Murcho

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