segunda-feira, 2 de abril de 2012

Por que ser e por que não ser cristão hoje?

A vida cristã se estrutura especialmente (para mim) em torno das seguintes ideias: Deus é amor; amar a Deus é amar ao próximo; amar ao próximo é fazer-lhe o bem, em especial, repartir do que temos com quem está em necessidade. 

Simples, e difícil de ser praticado. Eu mesmo penso que entendo mas não posso dizer exatamente que pratico: praticar o cristianismo (o amor cristão, o agape) hoje, é ser altruísta. E é difícil ser altruísta. Em todo caso, o ponto aqui em questão é: não precisamos de mais nada que o amor: não precisamos de metafísica cristã, de espiritualidade cristã, de moral cristã, (e, especialmente, de política cristã). 

Há outras formas de vida e outras religiões que são altruístas, o próprio altruísmo como ideal de viver para além de si mesmo e dos interesses mais imediatos e egocêntricos (ou egoístas) parece atrativo por si mesmo, e está bem que seja assim. 

Mas é possível ainda saber dessa possibilidade de vida, e tentar praticá-la, por causa de uma religião, e dentre elas, a de Jesus Cristo. É uma possibilidade tomarmos a vida cristã como uma forma de confirmação e motivação para este tipo de vida: o exemplo de Jesus Cristo, a tradição viva dos seus seguidores até hoje (especialmente de alguns como São Francisco). 

Dado isso, em certo sentido, mesmo a metafísica cristã, a espiritualidade cristã, e a moral cristã reaparecem sob nova luz, como acessórios ainda, mas coisas importantes como motivadores (elas não são essenciais e não podem tomar o lugar do essencial, mas podem ser motivadores). 

Por exemplo, a metafísica cristã do sentido da existência ou da existência de Deus, como um ser pessoal (mas também pode ser que seja: como o grande mistério da própria existência de tudo - que aproxima todas as religiões); a espiritualidade cristã (da oração e meditação individual ou coletiva, a liturgia comunitária, o silêncio sagrado etc.); a moral cristã - de mandamentos vetando a maleficência (deontologia), ou de virtudes do aperfeiçoamento da beneficência (ética das virtudes), ou do amor ao outro como a si mesmo (utilitarismo); todas, vinculadas à caridade (agape), que se torna sua chave-de-leitura, podem ainda ser cultivadas em alguma medida. 

Excluí de propósito a política cristã, mas, quando ligada à moralidade humanista e à política do bem comum, também podemos entende-la como um ponto de confirmação ou de motivação da vida altruísta. No nosso clima ético e político recente, todavia, devemos ter mais cuidado com qualquer ideia de política baseada na religião.

Essas quatro instâncias do cristianismo podem confirmar ou corroborar o ideal cristão essencial do agape, e podem motivar-nos, psicológica e espiritualmente, a viver vidas altruístas e vidas com mais sentido do que a vida ordinária. 

Com isso em mente, penso que posso agora responder á pergunta "por que ser cristão (ainda) hoje". A resposta tem duas faces (de uma mesma moeda): primeiro, porque, desafiados pelo exemplo de vida de Jesus Cristo e de ao menos parte de seus seguidores, somos convidados - ou confrontados - a viver segundo o espírito desse exemplo, ou seja, a viver vidas altruístas (o que por sinal é chamado no Novo Testamento de "viver segundo o Espírito"), e ser cristão motiva-nos ou direciona-nos a viver assim. 

Segundo, alternativamente, porque, vivendo altruisticamente, ou ao menos nos esforçando para viver assim, em alguma medida, somos presenteados e consolados com a boa notícia de que mais pessoas viveram ou tentaram viver assim, entre elas, pessoas muito especiais, como Jesus Cristo, e que ser cristão confirma no mais alto grau espiritual e moral, essa forma de vida. 

Em ambos os casos ser cristão acaba como um tipo de complemento de algo maior do que o cristianismo: ser altruísta é o ponto, mas é um ponto que tem mais a nos oferecer do que normalmente pensamos, ou normalmente obtemos, se não desenvolvemos, completa ou parcialmente, alguma religiosidade. 

Ser cristão é a religiosidade do altruísmo. O altruísmo é uma forma interessante de sermos felizes e de sermos bons: de respondermos às demandas da prudência e da moralidade. Mas é também uma forma interessante de religião: de respondermos às demandas do sentido último da vida e da vivência do mistério da existência. 

Neste último caso, a ideia é estendermos nosso ponto de vista, nossa visão de mundo, para uma visão mais abrangente, e a prática é transcender atitudes egocêntricas (e egoístas).

Agora tenho de dizer porque não ser cristão hoje. 

Em primeiro lugar, porque, se a resposta acima é verdadeira, ser cristão não é nenhuma obrigação ou necessidade para se ser salvou ou algo que o valha: e o próprio cristianismo, bem compreendido, acarreta, como uma das possibilidades abertas de sua vivência, o abandono dele próprio (do próprio cristianismo!), ou sua auto-relativização. 

O que importaria é o amor (a Deus e ao próximo, segundo os evangelhos; ao próximo, como forma de amar a Deus, segundo as cartas de João). O meio que nos leva a isso é o que menos importa. 

Essa resposta ainda deixa em aberto a possibilidade de nos mantermos cristãos, mas também de sermos universalistas ou pluralistas em relação ao próprio cristianismo, de não o vermos nem o praticarmos como algo particularmente necessário ou especial. Isso dependeria em grande parte da experiência de cada um e da vida cristã coletiva. 

Nesse quesito, porém, da experiência histórica ou da prática religiosa coletiva predominante hoje, temos mais, muito mais, a lamentar, do que aprovar, em todos os sentidos. 

As comunidades cristãs realmente existentes, em geral, não colocam a prática do amor (agape) no centro de suas experiências e estruturas, nem ao menos, de seu discurso teórica e prático. Perde-se mais tempo e energia com outras coisas, digamos, religiosas. Isso é uma boa razão para não se fazer parte dessas comunidades e da religião cristã, explicitamente. 

Ao lado disso, e mesmo quando parecem colocam o amor cristão como o fundamento último, as comunidades cristãs realmente existentes, em geral, não são liberais com aqueles que não são cristãos, sejam ex-cristãos sejam não-cristãos, mas que ainda são pessoas que vivem vidas altruístas. 

É como se ex-cristãos e não-cristãos, que formam na verdade uma mesma comunidade com os cristãos, a comunidade benevolente, fossem mau vistos, ou excluídos, ou discriminados, das mais variadas formas. 

Na verdade, a simples visão de que as pessoas tem de se converter ao cristianismo para serem salvas é uma forma de particularismo bastante ruim para a mentalidade universalista e humanista modernas. Isso é outra razão para não participar das comunidades cristãs reais. 

A terceira razão, que em parte se liga à primeira, é o tipo de metafísica, espiritualidade, moral e política que as comunidades cristãs reais, em geral, endossam: em primeiro lugar, desvinculadas do ideal do amor cristão (agape), e, em segundo lugar, irracionais. 

Talvez haja alguma versão da metafísica cristã tradicional que seja compatível com a ciência moderna, mas com certeza não é a versão endossada, em geral, pelos cristãos de hoje em dia. 

O mesmo ocorre com a espiritualidade: é muito provável que alguma versão possa ser compatível com a mentalidade racional, a ciência moderna e a psicologia das pessoas modernas. Por exemplo, uma espiritualidade mística, ou quem sabe meramente pragmática, com liturgia coletiva e oração e individual, mas que mantenha sempre claro e distinto que não se trata de levar "ao pé da letra", ou, de forma realista, a tais aspectos religiosos (como orações, gestos, objetos "sagrados", rituais e mesmo a Bíblia, doutrinas centrais do cristianismo, milagres etc.). 

Mas nenhuma dessas duas citadas, nem a versão mística (onde o é central é o silêncio diante do mistério natural e divino, e toda a liturgia apenas uma forma de "silenciar o coração", apesar do uso de palavras, gestos, objetos etc.), nem a versão pragmática (onde o que vale é a vida em comunidade e a prática do amor desta, e toda a liturgia apenas uma forma de tradição comunitária), são endossadas ou praticadas nas comunidades realmente existentes. 

Ora, tomando por aceito que a metafísica e a espiritualidade tem de ser compatíveis com o humanismo e racionalismo (e universalismo) modernos, e que isso torna necessário rejeitar qualquer "mitificação", então, que as comunidades cristãs realmente existentes, em geral, seja míticas (irracionais) em sua metafísica e em sua espiritualidade, é uma boa razão para não participar destas comunidades. 

O mesmo vale para a moral e para a política: sua essência cristã deveria ser o amor; sua natureza deveria ser compatível com (ainda que não redutível totalmente ao) humanismo ético e democracia secular; nenhuma das duas coisas é o caso; o melhor é abandonar tal moral e tal política cristãs. 

Não só por motivos racionais, mas também por motivos cristãos. É antes de mais nada por ser cristão que eu deveria desejar que os tribunais, as escolas, câmaras legislativas, e qualquer órgão estatal, não expusessem  símbolos cristãos, e quaisquer discursos religiosos (cristãos ou não). 

É antes de mais nada por razões cristãs que eu deveria me abster de usar qualquer recurso público ou espaço público, como uma rádio universitária estatal, ou um corredor hospitalar (estatal ou privado), ou mesmo uma praça pública, hoje, em que há várias religiões e lugares privados (igrejas por exemplo), para pregar. (Ok, este último ponto é um exagero meu).

Isso é um tanto desorientador para cristãos mais tradicionais e ortodoxos, principalmente para fundamentalistas, mas, novamente, é também o caso se for aceito pelo leitor que a moral e a política religiosas tem de ser compatíveis com o humanismo (a religião, e também a moral, a lei, a política, foram feitas para o ser humano e não o ser humano para a elas - um enunciado em parte fruto das próprias religiões tradicionais, e do próprio Cristo - mas em parte fruto da experiência social e da reflexão ética vivenciadas até o momento pela humanidade) e também tem de ser compatíveis com a democracia secular (o Estado tem de ser neutro entre religiões - tese normativa moderna em parte fruto da experiência das guerras e desavenças religiosas, dos males que elas trazem, e do modo eficaz de pacificá-las - privatizando-as). 

Permanece também o desafio de que amar ao próximo hoje, dada nossa experiência social e cultural acumulada, é respeitar tal humanismo e tal secularismo político, mas muito das ideias e  práticas cristãs reais hoje está em total desacordo com isso, e essa é uma boa razão para não ser cristão hoje. 

Resta porém, que é possível um cristianismo platônico: uma vida cristã ideal, separada das comunidades e religiões realmente existentes. Também há furos no quadro pintado acima: em geral, as comunidades cristãs reais são irracionais ou pouco humanistas ou antidemocráticas, mas muitas o são em um grau bastante pequeno ou moderado, e algumas, raras de encontrar, não o são. 

Talvez tais comunidades que estão mais próximas do ideal cristão essencial, nesta concepção aqui adotada, por um lado (ou seja, que colocam no centro o altruísmo e o bem comum), e também muito próximas dos ideais surgidos no mundo moderno, por outro (ou seja, que não colocam em destaque visões teóricas míticas, como por exemplo, o criacionismo, nem possuem práticas políticas autoritárias, como a imposição de leis cristãs ou religiosas, como o casamento monogâmico heterossexual, para todos os cidadãos, por exemplo), não sejam senão agrupamentos esparsos, tênues e contingentes, dentro das grandes comunidades e religiões, mas existam ainda. 

Tais agrupamentos de pessoas benevolentes com um identidade cristã mínima são a comunidade cristã, e ser parte de uma delas é o que alguém que quer ser cristão e moderno ou racional, almeja.

7 comentários:

  1. Olá Alcino, não sabia q v tinha blog, parabéns pelo empreendimento. Quanto à validade cultural deste artigo, muito útil para um país onde a ética não ocupa uma posição central na cultura e na vida da população.
    Por este artigo, percebo que suas idéias tendem em direção ao que entendo como Humanismo Secular... continue, parabéns.
    Octavio C. Botelho
    blog: http://octaviobotelho.blogspot.com

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  2. Obrigado Octavio. Concordo com você, ainda que o texto não seja explicitamente secular, mas religioso, e cristão. É que todo cristianismo é uma forma (deve ser uma forma) de humanismo mas nem todo humanismo é (nem deve ser) uma forma de cristianismo. É possível ser simplesmente humanista, e ponto: seja cristão, seja secular, seja ambos. Eu tento ser ambos, mas às vezes o desejo de abandonar a mística, em função do isolamento - não é comum encontrar cristãos esclarecidos hoje em dia - ou das limitações e falhas das igrejas realmente existentes - a visão mítica; as práticas discriminatórias e tradicionalistas -, é grande. Bem grande.

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  3. Ok Alcino, aproveito para lhe convidar para visitar meu blog: http://octaviobotelho.blogspot.com, e ler o artigo que postei ontem em razão da Semana Santa: "A Historicidade dos Episódios da Crucificação e da Ressurreição: Um Breve Estudo Crítico-histórico", espero que o mesmo seja útil para os seus estudos sobre o Cristianismo.
    Abrs.
    Octavio C. Botelho

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  4. Olá professor Alcino!Muito reconfortante saber que tem este pensamento!Realmente hoje em dia não tenho estímulos em ter religião.O que tenho visto é muitas religiões e,pouca ou nenhuma ética,o preocupar com os próprios atos,não querer prejudicar o outro,se tornou absoleto,ultrapassado.A visão de Cristo se tornou um tanto deteriorada,que me considero perdida,uma atéia de deus terreno,mas com forte pensamento Divino.Reconfortante seu texto,depois de um dia cansativo,foi até um presente.Obrigada!

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  5. Para colocar talvez mais 'lenha na fogueira', segue sugestão de uma entrevista do cineasta espanhol Fernando Trueba, que faz alguns comentários bem fortes sobre religião, bondade e valores na vida:

    Sangue Latino: Eric Nepomuceno entrevista Fernando Trueba

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  6. E se e se e se... Ainda que e se não se precisasse disto e daquilo, isto e aquilo ainda seriam fundamentais para nossa existência. Precisamos por algumas coisas em ordem. O mundo de hoje que não precisaria da experiência cristã ou da figura de Jesus é, creio, uma referencia ao mundo ocidental, o mesmo que pauta as condutos do oriental. Mas, vejamos, esse mesmo ocidente foi formado e formatado pela cultura judaico cristã que elas mesmas construíram padrões éticos que hoje nos são caros. Um deles o livre arbítrio. O problema do argumento do texto é que ele traz uma primazia da razão humana como juiz e executor das intenções e ações humanas. Como se todos pudéssemos ser de Vulcano, o planeta da lógica em jornada nas estrelas. Não, eu entendo que somos ingovernáveis em nossa autoindulgência e suficiencia lógicas. Não conseguimos seguir preceitos, porque eles não tem vida própria, também dependem da existência do homem, e se lhes são dependentes quem os defenderá de nós mesmos. Ao homem, todos os seus caminhos são retos, escreveu Salomão. Se as comunidades religiosas são imperfeitas, elas o são assim como todas as comunidades humanas que também são constituidas por crenças e por principios que passam a ser regras de conduta. Assim como talento intelectual e físico são para poucos, entendo que o desenvolvimento espiritual na religiosidade é para poucos. Jesus disse que muitos serão chamados e poucos escolhidos. O que pretendo defender é que deve haver o governo humano do outro, uma submissão de nossa vontade a uma vontade mais abrangente. Assim é com pais e filhos, professores e alunos e governantes e governados. E se Deus fosse um jogador de xadrez, pois Einstein disse que ELE não joga dados, e se cada peça tivesse uma atuação precisa e demarcada? Explico melhor, se Deus fosse um compositor e maestro, as notas breves, longas e o silencio seriam fundamentais em si e no todo para a condução da obra. Somos maus juízes de nossos atos, pois somos indulgentes o bastante para revogá-los, até porque a educação em qualquer de suas acepções não é inata, a cada geração precisamos passar o legado da humanidade a tantos outros homens. Entendo que o Universo tem um governo, com leis e ordem estabelecidas. Existe uma programação que ouso dizer que pode ser reduzida ao que chamamos de mente ou consciência, não me cabe precisar os termos, até porque acho que estas palavras são tremendamente insuficientes para abarcar algo que ainda está a anos luz da linguagem humana, seja em extensão ou profundidade. Devemos nos submeter ao outro e ao Outro e ao OUtro e ao OUTro e ao OUTRo e ao OUTRO. Quem é o OUTRO? O OUTRO maior, um ente que está acima, do lado, no raso, no largo e no profundo. Precisamos do OUTRO, precisamos saber que existe sempre um OUTRO no fim de cada gesto nosso. A SUBMISSÃO A ALTERIDADE É ALTRUÍSMO. É também uma ALTERIDADE POLITICA pois acredito que o homem é politico por natureza. A alteridade não pode ser um principio ético porque principios éticos não humanos quanto mais seres ou entes. As comunidades cristãs nem são o fim último da cristandade pois Jesus disse que devíamos sair da nossa zona de conforto e IR A OUTROS POVOS E NAÇÕES. EU VOS ENVIO COMO OVELHAS AO MATADOURO. É um exercício de sacrifício pessoal e de disciplina. E disciplina é algo que em toda atividade humana nos é imposta para nos governar antes mesmo de entender sua razão. Nem todos os caminhos levam a ROMA. Entregar à razão humana o juízo e execução de nossas ações é o caminho para alimentar nossa autoindulgência. E se nos ajudasse QUE O SUPER HOMEM VENHA NOS RESTITUIR A GLÓRIA E MUDAR O CURSO DA HISTÓRIA POR CAUSA DA MULHER?

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    1. Nelson, obrigado pelo comentário.

      1) A premissa de que sem um "outro" mais poderoso ou
      diferente de nós não teremos como nos auto governar
      é problemática (talvez falsa): povos democráticos com legislações laicas
      são os que mais se auto governam bem; pessoas sem religião se auto governam
      bem; há poucos ateus em prisões se comparados com sua percentagem
      na sociedade; povos que dependeram ou dependem da religião são os que menos
      se governam bem e precisam da força para impor o que
      se crê ser moral.
      (Países nórdicos caminham a passos
      largos para a ausência completa da religião e estão entre
      os mais pacíficos e solidários (a taxa de doação caridosa
      é a maior existente; a menos está em países cristãos,
      especialmente os USA, o maior país cristão do planeta.)

      2) Mesmo que se precisasse da religião para superar a suposta
      auto indulgência (o que é isso exatamente?), nada disso rezaria por
      si mesmo em favor da existência de Deus ou em favor da importância
      da religião: apenas revelaria que, se somos auto indulgentes,
      precisaríamos nos auto iludir com crenças não naturais.

      3) Por fim, a própria religião sairia perdendo, pois teria de ser vista
      como algo instrumental, um meio para colocar ordem em nossas
      paixões. Mas a religião é a busca de Deus ou o encontro com Deus,
      e a moral é algo secundário para ela. Claro que aqui o ateu pode dizer
      que coisas melhores a se fazer na vida, e ele estaria em solo seguro neste desafio.
      Faça este tipo de proposta a jovens pouco doutrinados para que escolham livremente
      um certo tipo de vida, e eles em geral escolherão (é só uma hipótese) um modo de
      vida que não inclui ilusões religiosas.

      4) Parece que as religiões tradicionais dependem de uma visão pessimista
      e catastrófica da humanidade e do universo, como se precisássemos ser
      salvos de algo, talvez do pecado, do sofrimento e da morte.
      Mas pode ser que não precisamos sermos salvos de nada.
      O sofrimento é parte de vida, e a tecnologia a cada dia
      o diminui; a morte é parte da vida e pode também ser adiada cada vez
      mais novamente pelos avanços tecnocientíficos; com boas instituições, como
      a democracia, o império da lei, a moral secular, estamos cada vez menos
      egoístas e mais altruístas.

      Tudo isso é uma resposta ao seu comentário acima, mas seu comentário não
      alude aos (outros) pontos do artigo: ele tem uma parte bastante favorável ao cristianismo
      como religião do amor (a Deus e ao próximo), e uma parte crítica que alude a vários aspectos.
      Posso tomar seu comentário como favorável à primeira parte do artigo, não?

      Abraço, Alcino

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