terça-feira, 7 de agosto de 2012

O que aconteceu com o certo e o errado? Breve curso de Ética.

Breve Curso de Ética -

Prof. Alcino Eduardo Bonella

Breve Introdução (i)

Durante as próximas semanas, publicarei aqui argumentos e ideias retiradas ou baseadas em sua maior parte no/do livro de Russ Shafer-landau (SHAFER-LANDAU, Russ. What happened to Good and Evil?. Oxford, Oxford University Press, 2004). 

Será um tipo de resenha: uma mistura de um resumo analítico ou quase isso (quando reproduzimos quase todas as ideias de um autor) com alguns comentários pessoais, ora críticos ora construtivos. Eu iria diferenciar resumo e comentário, colocando entre chaves o segundo, mas não farei isso algumas vezes, liberdade que tomo por ser esta uma página informal de divulgação da ética.

Estas postagens são um tipo de curso breve de ética. A ética é o ramos do pensamento humano que lida criticamente com a moral. A moral é a instituição humana que lida com problemas acerca do que se deve fazer. Podemos  nos perguntar sobre o que se deve fazer em relação a uma gama vasta de problemas humanos, e este tipo de pensamento pode ser visto como normativo. Por exemplo, o que devemos fazer em relação à pobreza extrema que ainda existe ao lado da riqueza extrema e da riqueza moderada? E em relação ao abate de animais para nosso consumo de produtos animais?

Mas podemos nos perguntar sobre a natureza deste tipo de investigação, e este tipo pode ser visto como metaético. Podemos nos perguntar sobre o que significa usar a linguagem do certo e do errado ou do que se deve fazer, se tal coisa é relativa ao que achamos (subjetivismo), ou relativa ao que nossa sociedade acha (relativismo), ou nada disso, seja porque não existe o que é certo ou errado (nihilismo), seja porque existem verdades morais independentemente das crenças ou opiniões individuais ou coletivas (objetivismo).

Há ainda a ética descritiva, que não faz pensamento normativo, nem metaético propriamente dito, mas científico. Nestas postagens estamos tratando apenas do segundo tipo, que é o tipo especificamente filosófico. É por isso que o título das postagens trará sempre o subtítulo "breve curso de ética". E o problema central de todas é o que está no exemplo dado acima, as posições chamadas de céticas (nihilismo, subjetivismo e relativismo) e a posição chamada de objetivista.

Isso nos leva ao Prefácio do livro! O tema básico do livro [de certo modo da ética filosófica; e a tese básica do autor, e minha também], é que algumas visões morais são melhores do que outras, seja qual for a opinião sincera dos indivíduos, ou das culturas e sociedades. Essa é uma teoria fora de moda, pois a estória contada na maior parte do tempo e dos lugares (incluindo as aulas do Zé Maria e provavelmente da Georgia) é: 
                                    
                              "o que é certo e errado depende dos olhos de quem vê"

- as culturas e sociedades (“bom para tal e qual sociedade”), ou indivíduos (“bom para mim; bom para você”). Isso tem seu charme próprio. Pensemos na tolerância de quem pensa diferente (o Zé Maria me atura e respeita minha visão, e eu aturo e respeito a dele) e no pluralismo ou diversidade de visões sobre a vida (a Georgia defende a diferença e os diferentes; eu também). Um filósofo cético nestes termos é Alan Goldman (um livro em que ele expõe seu pensamento é Reasons from Withim, 2009)

Mas tais coisas tão importantes para a maioria dos que adotam a estória atual (com certeza para o Zé e para a Georgia), são muito mal defendidos com aquela base ou fundamento relativísticos (ceticismo quanto ao que é certo) e seriam bem melhor defendidas com outra base ou fundamento. Exatamente a fora de moda, a objetivista. Para um objetivista, segundo Shafer-Landau,

                              "o que é certo e errado independe dos olhos de quem vê".

Outra forma de dizer poderia ser, segundo eu mesmo:

                "o que é certo e errado depende dos olhos morais de todos os que vêem" 

Para Shafer-Landau, na verdade, o que é certo e errado depende da realidade, assim como o que é verdadeiro em biologia, em matemática ou em história depende também, em última instância, da realidade. No caso do certo e do errado, de uma realidade moral. Para alguns pensadores, como Richard Hare e Peter Singer, depende de um acordo racional entre pensadores morais, não há um realidade moral lá fora, mas há como questionar e embasar as "visões" particulares em função de visões "universais". (Singer diz que está em dúvida, depois de ler o último livro de Derek Parfit, chamado On What Matters, sobre valor, razão e moralidade, mas a dúvida no caso joga em favor da posição objetivista e não da cética. Eu vou ler este livro só daqui a alguns meses ou talvez no ano que vem, já que preciso terminar de ler o outro livro de Parfit, Reasons and Persons, e ler os livros e alguns artigos de John Broome, sobre temas afins).

Será que eu estou muito velho e com uma vida muito burguesa para pensar tais coisas nestes termos, ou seja, para apoiar o Objetivismo (e Universalismo) ético? Os mais jovens em geral estão mais próximos de Nietzsche e de Sartre, com seu perspectivismo (cada ponto de vista é visto de um ponto) e seu existencialismo (cada um de nós tem sua visão particular do que se deve fazer e do que é valioso).

Mas não importa, o que importa é o argumento, sejamos novos ou velhos. E o melhor argumento sobre a natureza dos nossos juízos morais está do lado objetivista do debate. Duvida? Bom, eu também duvido, e tenho lá minhas precauções. Shafer-Landau ao menos não duvida, e vamos acompanhar os passos argumentativos dele.

 * * * * *

(1) Você já ouviu algo sobre moral ou utiliza a moral em sua vida? E nossa sociedade? O que acha de tudo isso, e por que?
(2) Quais os tipos de ética que estão relatados no texto?
(3) Quais os tipos de ceticismo ético e de objetivismo ético relatados no texto?
(4) Qual a visão que você encontra na universidade entre professores e alunos. E em outros lugares?

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Prof. Dr. Alcino Eduardo Bonella (UFU/CNPq)

6 comentários:

  1. Meu professor de ética na universidade era objetivista[rs]! Estou curiosa para as próximas postagens, Alcino! Bom blog!

    Abraço!

    Mariana Spacek

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  2. O senhor poderia fazer um post diferenciando ética, ética normativa, ética prática, ética descritiva e metaética. As vezes me confundo com essas denominações. Apesar de seu post hoje ter esclarecido em parte minha dúvida. Um pensador como Aristóteles, por exemplo, se encaixaria em quais dessas éticas que citei ali em cima?

    abraço, até

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  3. Ética é uma disciplina da filosofia que estuda a moral.
    Moral é o reto agir, ou, o conjunto de prescrições universalizáveis sobre o agir humano. Então, Ética é a aplicação do pensamento crítico ao reto agir e ao raciocínio sobre ele, e engloba em geral a metaética, a ética normativa e a ética prática. Por exemplo, as postagens deste curso são um exemplo de metaética, e, logo, de ética simplesmente.

    Ética normativa e ética prática se equivalem, e se distinguem talvez pela foco: a primeira no(s) critério(s) moral(morais) substantivo (s) e no padrão moral (ou padrões morais) que podem ser usados na ética prática, que, trata, diretamente, de problemas específicos. Por exemplo, a ética prática trata diretamente do aborto e de outros problemas que envolvem a medicina (e são catalogados como bioética - você esqueceu de colocá-la na lista!), enquanto a ética normativa trata do padrão ou padrões do que é certo e errado em geral, se o certo é o que produz as melhores consequências para os envolvidos e afetados, por exemplo, pela lei do aborto, ou quem sabe, o certo é o que é justo fazer independentemente dos efeitos que isso terá sobre os afetados, por exemplo, que não é justo atender à mulher que solicita o aborto (ou vice versa, obrigar a mulher a manter uma gestação indesejada seria algo injusto), ou uma mistura deste dois padrões.

    Ética descritiva é o nome que se dá ao estudo empírico da ética e da moralidade, é o que se faz na antropologia, sociologia, psicologia, em em qualquer estudo que visa conhecimento dos fatos. Por exemplo, quando o sociólogo estuda os padrões normativos seguidos pela maioria das pessoas quando falam sobre o aborto.

    Metaética é o nome que se dá ao estudo conceitual e propriamente filosófico da moral e do pensamento moral (raciocínio moral). Por exemplo quando, ao se tratar do aborto, se pergunta, afinal de contas, o que estamos fazendo e o que significam as palavras e o discurso que estamos usando. É um estudo lógico dos conceitos que usamos ou poderíamos usar. O breve curso que estou postando, sobre o certo e o errado, não avalia se é certo ou errado o aborto o outra ação, mas se podemos pensar que tal opinião é objetiva ou subjetiva, ou quem sabe relativa culturalmente, e quais as implicações de cada uma destas interpretações.

    Aristóteles talvez se encaixe na... humm... deixe-me ver... uai, não sei. Parte do que ele escreve sobre ética é metaética, porque ele trata do raciocínio prático, da fraqueza da vontade e outros pontos mais teóricos. Mas ele também tem uma lista de virtudes e vícios e uma reflexão sobre como chegar e manter-se na virtude, e neste sentido, ele está fazendo ética normativa e prática.

    Um abraço,
    Alcino

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  4. Muito obrigado pela atenção, agora entendi melhor, pois achava que eram coisas bem dissociadas. Continue com os posts, estão ótimos. Parabéns.

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  5. Kant é considerado como um objetivista?

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