segunda-feira, 8 de outubro de 2012

AULA 5 - REPOSIÇÃO - Graduação em Filosofia - Objetivismo Ético - Parte A


AULA 5 - REPOSIÇÃO - Objetivismo Ético - Parte A


Hand-Out de SHAFER-LANDAU, Russ. Whatever happened to Good and Evil. Oxford, Oxford UniversityPress, 2004 (Parte 3).


PARTE 3 – Em defesa da Objetividade Moral

Cap. 12 – Como o Objetivismo ético resolve os problemas do Ceticismo Moral

O Objetivismo (O) ético é a visão de que existem verdades morais que não são fabricadas por nós, reivindicações morais que são independentes do que qualquer um em qualquer lugar possa por acaso achar correto. Um argumento em favor disto: primeiro mostra como tal visão não sucumbe aos problemas implicados no ceticismo moral; depois, em segundo lugar, responde aos principais ataques que os céticos podem levantar. Vejamos a primeira tarefa.

S-Landau sugere que só o (O) pode interpretar adequadamente a possibilidade de erro moral [e a crítica externa aos compromissos de qualquer moralidade convencional]. Se adotamos o O., então nossas visões poderão, às vezes, estar erradas, e por razões independentes em relação ao que achamos ou ao que nossa sociedade acha. 

Para o (O) a moral não é um empreedimento puramente convencional e por isso nós não somos infalíveis em relação à verdade. Se o niilismo/subjetivismo/relativismo forem verdadeiros, então nós somos não só infalíveis, mas podemos ser perfeitos moralmente, pois nós julgamos a nós mesmos nestas visões, e não haveria mais erro moral.

Mas se pode haver erro, não pode haver equivalência entre todas as posições morais discordante entre si: por exemplo, ou Hitler ou Oskar Schindler estão mais próximos da verdade moral, mas não podemos dizer que ambas as posições são verdadeiras ou equivalente (ainda que isso não diga ainda por si só qual delas é a mais próxima, ainda que eu tenha certeza de que seja a de Schindler, neste caso).

Se não pode haver equivalência entre as posições morais, pode haver progresso ou regresso moral, coisas que não ocorrem apenas por causa do que achamos ou do que que nossa sociedade acha: há progresso ou regresso porque se julga o passado e o presente através de um padrão objetivo, que não é estabelecido por nós mesmos, que apenas descobrimos ou reconhecemos como o padrão do certo e do errado.

Há razões para não sermos dogmáticos e para sermos tolerantes, mas se somos céticos morais, então aumentamos as chances de que tais razões sejam meramente arbitrárias ou caprichosas, sejam nossas seham de nossas sociedades: o dogmatismo e a intolerância são errados moralmente, ponto; ou são errados para sociedades e/ou indivíduos que acham que seja assim? Se são relativamente errados, então não serão errados em sociedades que são dogmáticas e intolerantes. Ora, é exatamente para este tipo de sociedade ou de indivíduo que parece existir o desafio da tolerância e da diversidade. Então, o certo e errado não pode ser coisa sem noção (niilismo), ou uma coisa que é dependente das opiniões dos indivíduos e sociedades. Ora, esse é exatamente o caso no Objetivismo ético.

No ceticismo moral, uma forma de vida devotada à justiça e à eliminação da miséria seria tão valiosa quanto uma forma de vida devotada a trivialidades [novas técnicas de origamis, por exemplo, ou contar folhas de grama em um quintal], mas não no Objetivismo ético, onde uma estará mais próxima da verdade moral e por isso vale mais do que outra. [qual será, neste caso?]. Essas são as melhores razões para se agir, que se age do jeito objetivamente ou verdadeiramente correto.

Porque pode haver erro e acerto, regresso e progresso, pode haver genuína contradição entre as propostas de vida moral, mas isso se elas não são ultimamente definidas pelas opiniões dos indivíduos ou de suas sociedades (se o fossem, não haveria contradição genuína, apenas diferenças, mas todas elas certas), e, se assim é, o objetivismo ético não é autorefutante (autoderrotante), pois sua aplicação a si mesmo não implica sua autonegação, como interpretação da vida moral. 

Assim como há verdades sobre uma realidade física ou matemática, que não dependem de nossa própria autoridade ou construção para serem válidas, haveria, para o (O), verdades sobre a realidade moral com a mesma natureza.

Poucos todavia, adotam hoje o Objetvismo Ético, talvez porque há muitos argumentos contra ele também. 

Vejamos isso nos próximo capítulos.

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1 - Em que situação o relativismo não escaparia da intolerância e do dogmatismo? Que recursos relativistas poderiam ser mobilizados para escapar desta situação?

2 - Que recursos o objetivista pode mobilizar para escapar da situação citada acima? Isso faz sentido?

3 - As pessoas que acreditam em normas morais que estariam acima da vontade das pessoas não são dogmáticas e intolerantes? Como diferenciar dogmatismo de objetivismo? (em casa)

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Cap. 13 – Universalidade, Objetividade, Absolutismo


O cético ataca o objetivista alegando que, se o objetivismo fosse verdadeiro, então existiram normas morais universais e absolutas. Como não existiriam tais coisas, o objetivismo seria falso.

Esse argumento confunde vigência universal de uma norma, que seria endossada por todos, com exigência de aplicação universal da norma, que deveria ser aplicada mesmo que os destinatários não a endossassem. O objetivista está comprometido apenas com o segundo tipo de universalidade.

Há norma que todas as culturas ou indivíduos aceitam? Se sim ou se não, o objetivismo ético passa incólume e se mantém indiferente a tal questão, porque uma norma pode ser objetiva (verdadeira) e não ser universalmente endossada de fato [por exemplo, uma norma que proíbe matar animais para consumo quando existem alternativas], assim como uma norma pode ser universalmente endossada e não ser objetiva.

O sentido de universalidade implicado pelo objetivismo é este: uma norma, se for objetiva, se aplica a todos em situações semelhantes.

“Assim, uma ética objetiva não precisa ser de fato endossada por todos, embora ela deva ser aplicada a todos. Algumas normas morais são reais (existem de fato), embora não sejam nem objetivas, nem universais. Tudo isso porém é compatível com o objetivismo ético, porque tais normas são genuínas somente se são exemplos de normas morais que sejam ambas as coisas”. (p. 65)

E sobre o absolutismo? O objetivismo é neutro sobre isso: tanto podem existir normas absolutas quanto não existir. O objetivismo também passa incólume e se mantém indiferente a sua verdade ou falsidade. Ou seja: o objetivismo pode ser verdadeiro e o absolutismo falso (sempre haveria exceções a qualquer norma), ou o absolutismo poderia ser verdadeiro (torturar seria, por exemplo, sempre errado, sem exceções) e o objetivismo falso (torturar é sempre errado, mas não é norma objetiva ou verdadeira, mas uma ficcção, ou uma norma subjetiva de pessoas que desaprovam a tortura, ou uma norma de uma sociedade que crê nisso).

“Assim, o objetivismo ético não está, afinal de contas, comprometido com normas morais inquebráveis. Ele permite que possam existir normas inquebráveis (se houver qualquer norma assim), mas também é compatível com visões que nos permitem abrir exceções se as circunstâncias são difíceis o suficiente. O objetivismo não está comprometido com a existência de quaisquer normas morais que sejam endossadas universalmente. Ele está comprometido com a existência de normas morais que se aplicam a todos, embora ele também tenha sensibilidade para permitir espaço para algumas que não são.” (p. 66)

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1 - Explique os dois sentidos de universalidade, e porque o objetivismo ético só está comprometido com um deles (dizendo qual é).

2 - Por que o objetivismo não é necessariamente absolutismo moral?

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Cap. 14 – A (não) importância do desacordo moral

* Argumento do desacordo moral (1):

1 – Se pessoas bem esclarecidas e de mente aberta discordam intratavelmente entre si sobre alguma reivindicação, então esta reivindicação não pode ser objetivamente verdadeira.

2- Pessoas bem esclarecidas e de mente aberta discordam intratavelmente sobre reivindicações morais.

3- Logo, reivindicações morais não podem ser objetivamente verdadeiras.

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O problema básico deste argumento é que a primeira premissa é falsa: basta pensar em desacordos intratáveis em física, geológica ou química: eles não indicam que não há verdades objetivas, apenas, que não a encontramos ou que temos ainda opiniões divergentes. O mesmo em ética. 

Ou seja, pressupõe-se a resposta que deveria ser demonstrada ao se assumir que o desacordo acarreta o ceticismo, e exatamente, na ética. (p. 138).

A segunda premissa também é problemática: há bastante acordo sobre muitas matérias morais, até pelo simples fato de que somos animais sociais que se beneficiam muito do respeito geral a certas normas de comportamento.

O cético pode porém, refinar o argumento a partir do desacordo:

** Argumento do desacordo moral (2): 

1- Se o desacordo for muito amplo e sua natureza muito profunda que em outras áreas, o ceticismo é verdadeiro.

2- O desacordo moral é muito mais amplo e sua natureza muito mais profunda do que em outras áreas.

3- Logo, o ceticismo moral é verdadeiro.

Por quê? Porque a moral é totalmente feita por nós, mas as outras ciências dependem dos fatos da realidade. Com tempo e energia é provável que as divergências científicas se resolvam, o que não é o caso da ética.

Porém, será que não podemos explicar o desacordo moral como um tipo de falha remediável: se melhorarmos nosso acesso aos fatos, nosso uso da lógica, nossa imaginação do que é ser vítima de uma ação, e também o conhecimento e neutralização do “viés” (bias), provavelmente remediaremos o desacordo.

“Maior informação, melhor processamento da informação, capacidades imaginativas melhoradas e uma apreciação crítica do enviesamento que altas apostas podem gerar DIMINUIRIAM, tomadas em conjunto, o grau do desacordo moral. (...) Se desacordos científicos não solapam o estatuto objetivo da ciência, então, desacordos morais não deveriam solapar o estatuto objetivo da moralidade” (p.70).

O cético pode porém, refinar de novo o argumento:

*** Argumento do desacordo moral (3)

1- Para produzir acordo e garantir objetividade é preciso métodos empíricos.

2 - Há métodos empíricos de averiguação e correção nas ciências, mas não na ética.

3- Logo, pode-se produzir acordo e garantir objetividade apenas nas ciências, não na ética.

"A ética é diferente e então não é objetiva". Porém a ética é um tipo de investigação filosófica, fundamentalmente diferente das ciências naturais. Existem disputas intratáveis em filosofia, a filosofia não usa método empírico, e mesmo assim ainda faz sentido se pensar que há verdades filosóficas objetivas. Ex: se Deus existe; se temos livre-arbítrio. Certamente existe uma resposta objetivamente correta para estas questões. Faz sentido pensar assim, pois são questões sobre o que de fato é o caso, e, por analogia com as ciências, se for o caso de que x, então "não x" é falso, e vice verda (aplique isso aos temas sugeridos). Logo, se a ética é uma investigação filosófica, ela também pode manter o ideal de objetividade.

Por fim, o cético deveria abandonar este tipo de argumento, pois pode ser usado contra ele.

(*) Argumento do desacordo filosófico (1):

1- Se uma reivindicação é tema de disputas intratáveis entre pessoas esclarecidas, então ela não é objetivamente verdadeira.

2 – O ceticismo moral é o tema de disputas intratáveis entre pessoas esclarecidas.

3 – Logo, o ceticismo moral não é verdadeiro.

O cético só pode se livrar disto abandonando o ceticismo, ou abandonando este tipo de argumento.

* * * * * 

1 - Um dos argumentos contra o objetivismo apela para a falta de acordo entre os moralistas ou entre as sociedades. Explique a resposta de Shafer-landau a este apelo. (em casa)

2 - Por que o cético tem de abandonar o argumento a partir do desacordo? (em casa)




Cap. 15 - A Objetividade ética requer a existência de Deus?


Muitas pessoas pensam que se acreditarem em normas morais objetivas, então terão de ver estas normas como criadas por Deus, e isso inclui teístas e ateus. Elas confiam no argumento a partir do ateísmo

1. Se a ética é objetiva então Deus existe como seu autor; 
2. Ora, Deus não existe; 
3. Logo, a ética não é objetiva.

(Podemos variar o argumento e torná-lo um argumento a partir de crença em Desu:
1. Se Deus existe, então ele criou a ética, e ela é objetiva (não depende de ninguém senão Deus).
2. Ora, Deus existe.
3. Logo, a ética foi criada por Deus e é objetiva.)

A boa nova é que não precisamos de fato saber se Deus existe ou não para acreditar que há normas morais objetivas: o objetivismo ético pode ser verdadeiro mesmo se deus não existe, e também pode ser verdadeiro sem sustentar que Deus (que existe!) é o autor das normas morais. Simples assim.

As pessoas tendem a aceitar o argumento a partir do ateísmo por causa da suposta necessidade de um legislador por detrás das leis. Se há lei moral, há um legislador que a produziu. Se a lei é objetiva, e vale independentemente do que eu acho ou do que a sociedade acha, então seu autor não é o ser humano. Mas quem seria então? Isso mesmo que você pensou: Deus!

Problemas:

Os ateus não devem aceitar o argumento por que a primeira premissa é inadequada. Se deus não existe, quem criou a lei da gravidade? Ninguém. Não se precisa de um autor particular. A lei da termodinâmica, como a da gravidade, tem pretensão de ser realmente (objetivamente) verdadeira, mas como o ateu não acredita em deus, e como não foi o ser humano que criou tais leis, o ateu deve dizer que há leis sem legisladores. E este pode ser exatamente o caso das leis morais (este é o caso das leis morais!).

Talvez se possa dizer que as leis da física e da química são leis científicas, e as leis morais são leis normativas. A moral estaria mais para o direito e a etiqueta do que para ciência. Mas há leis normativas, como leis da lógica e leis da racionalidade que não são científicas ou empíricas, e são leis. E não tem autores.

Os teístas obviamente não aceitarão o argumento a partir do ateísmo porque não são ateus e sustentam que a segunda premissa é falsa. Mas há duas alternativas: a segunda premissa é falsa porque Deus existe e é o autor das leis morais; ou: Deus existe e não é o autor das leis morais.

As leis morais são morais porque Deus ordenou que assim seja, ou Deus as aprova assim porque elas são morais? Se for o primeiro caso, as normas são arbitrárias, e Deus também. Se for o segundo, as normas tem suas razões (objetivas) de ser, mas Deus não é o seu autor, e sim um dos seguidores das normas morais.

“Se a teoria do comando divino está correta, então alguma coisa é boa somente no caso de ser aprovada por Deus. Mas então veja o que acontece: dizer que Deus é bom é somente dizer que Deus aprova Deus. É isso que realmente queremos dizer quando dizemos que Deus é bom? Mais, não há nada nesta caracterização que assegura que tal Deus que se ama (que se aprova) não escolheria a tortura ao invés da compaixão. Amar ou aprovar a si mesmo é uma coisa. Não há conexão necessária entre ser alguém que se aprova, por um lado, e proibir tais coisas como tortura e estupro, por outro lado.” (p.83)

(E quanto à versão 2 do argumento baseado em Deus: podemos dizer algo semelhante? O que exatamente?)

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1 - Dostowievisk e Sartre endossaram a ideia de que, "se Deus não existe, então tudo é permitido". Você concorda com eles? Por que?

2 - Kant endossou que uma pessoa tem valor em si mesma porque entre outras coisas pode exigir que respeitem sua autonomia. Respeitar a autonomia das pessoas seria uma lei moral objetiva. Você concorda com Kant? Por que exatamente? Isso torna necessário que Deus exista e tenha criado esta lei?

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