quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Aula especial 2 - Cursos de Biomedicina, Química e Geografia


Aula especial  2 - Cursos de Biomedicina, Quínica e Geografia

Filosofia da Ciência e Metafísica da Pessoa Humana


O que é um ser humano essencialmente?


Vimos na aula aspectos da identidade dos seres humanos como organismos. Esses aspectos tinham relevância para casos como uso de embriões em pesquisa, aborto de fetos precoces.


Os argumentos do "transplante de cérebro" e do "caso  dos bicéfalos" sugeriam que não somos organismos ou organismo vivos. Se nosso cérebro fosse com sucesso transplantado para outro organismo e o sujeito que se manifestasse após isso neste outro fôssemos nós mesmos, então diríamos que fomos transplantados ao outro corpo, mas a parte que foi transplantada não é um organismo, é parte dele, e o corpo que recebe nosso cérebro é outro organismo. Logo, não somos um organismo. Bicéfalos (que tem dois cérebros em um mesmo corpo) possuem dois sujeitos e um só organismo, logo, não são, ao menos um deles, mas talvez os dois, um organismo, e se eles não são, nós também não somos. Logo, não somos organismos..

      



Talvez se pudesse sustentar que nós não somos organismo mas ainda somo alguém que existe desde a concepção, e tambem no embrião e no feto precoce, e também no ser humano sem cérebro ou em estado vegetativo permanente. Qual seria? Seria que visão de que temos alma ou espírito não físico, ou que somos uma alma, e isso é nossa identidade essencial. Seja como um aspecto do nosso ser ou forma (que informa a sua matéria) no caso do Hilomorfismo clássico, seja como uma substância imaterial distinta do nosso corpo no caso da conepção popular e da concepção cartesiana, a alma poderia começar a existir em associação com o zigoto imediatamente após a concepção. Muitos hoje ainda levam em conta essa segunda visão, incluindo médicos e legisladores, daí a justificativa para tratar criticamente dela.

A concepção popular

Trata-se da crença de que existem entidades sobrenaturais, e, entre elas, a alma ou espírito presente nos seres humanos, e apenas nestes. Em algumas tradições também há almas nos animais, mas a mais comum é a primeira. A alma, por um lado não tem nenhuma característica física, por outro, teria aparência similar a nós, seja como organismos (forma corporal), seja como mentes (conteúdos mentais tais como memória, desejos, crenças, emoções, vontade). Ou seja, a crença (popular) mais comum sobre a alma é de fato vazia (empty) porque nela tudo é possível, já que ela não é nem o corpo nem a mente (capacidade cerebral para a consciência), e assim, não tem características, e se ela não as tem, não há porque pensar que ela começa a existir na concepção, nem que ela seja essencial a este ou aquele indivíduo biológico, que pode possuir várias almas, assim como uma alma individual poderia habitar uma série de corpos diferentes.

Por exemplo: 
1 - Qual seria sua natureza?
2 - Quais razões para pensar que uma alma existe?
3 - Como se compatibiliza com a natureza dos outros animais semelhantes a nós e quando na história evolutiva (seguindo aqui o darwinismo) passou a existir?
4 - Por que as capacidades conscientes e psíquicas são afetadas pelo que acontece com o cérebro?
5 -O que acontece com a alma quando o embrião humano de divide formando gêmeos idênticos ou se funde, formando quimeras?
6 - E quando uma operação de comissurotomia produz dois centros de consciência em uma mesma pessoa?

Nenhuma dessas respotas parece fácil de ser respondida e quando o é, é desafiada como incoerente ou como não natural e não racional.



                       





Uma concepção antiga e clássica, e que ainda está vigente por exemplo na igreja católica, é do Hilomorfismo, mas ela não é necessariamente compatível com a crença de que começamos a existir na concepção, como a popular e como a concepção cartesisa.

Na visão hilomórfica nós não somos almas, somos organismos com um princípio constituinte ou organizador da matéria: neste caso tal visão não é senão uma forma de materialismo polido. Isso não implica que desde a concepção já há uma alma racional, pois o corpo só terá algo disso após a formação do cérebro.  

Diferentemente do Hilomorfismo, pode-se pensar na alma como uma entidade não física: nós não temos uma alma, nós seríamos uma alma, e mesmo que haja corpo e alma, é a alma a nossa parte substancial. Isso (1) explicaria a consciência, os sentimentos e as percepções, supondo que não poderiam ser mera matéria. A alma (2) interagiria causalmente com o cérebro e o corpo, mas não dependeria dele para sua existência, nem da continuidade psicológica do indivíduo (por exemplo, que com mal de Alzeimer vai perdendo tal continuidade). Neste sentido tal concepção sobre a identidade pessoal (3) é não-reducionista: a existência contínua de uma pessoa não se reduz a nenhuma continuidade física ou psíquica. Há porém (4)  um critério para traçar a existência ou presença da alma: haver consciência ou capacidade para consciência. Sem ela não há mais alma ou ao menos não em associação com o corpo. Mas isso (6) dificulta a tese de que começamos a existir na concepção, pois não há nenhuma evidência de consciência neste ponto. (7) Dizer que ela está enclausurada e ainda se atualizará traz problemas para a visão do além da morte, já que assume a necessidade do cérebro e seu funcionamento para que a alma seja consciente. 

Que a concepção cartesiana não é compatível com o início na fertilização é algo que a faz perder seu charme. Além disso, há objeções que parecem fatais: (a) a dependência, que os eventos mentais possuem, de estados do cérebro (o funcionamento mental é afetado pelo álcool e danos cerebrais físicos); (b) animais também pensam, sentem, e percebem, no sentido comum e prático desta comparação (Cartesianos assumiram que eles eram somente máquinas programadas por Deus); então, ou eles também tem ou são almas, ou a alma tem a ver com capacidades mais elevadas da cognição, o que deixaria fetos em estágio avançado, recém-nascidos, crianças, deficientes mentais, sem almas! (c) Outra objeção apela ao fenômeno dos gêmeos monozigotos, em torno de quatorze dias da gestação: se isso ocorre, o que ocorre com a alma? Ela se divide e então deixa de continuar existindo, o que seria trágico; ou ela não se divide e fica com um dos gêmeos, e o outro terá uma alma criada por Deus em um momento diferente da fertilização; ou será um autômato, como os animais cartesianos; ou Deus implantou duas almas desde o início, no zigoto que ira se dividir em dois (mas, se já não há evidência de que haja uma alma, dada a falta de evidência da consciência no zigoto, menos ainda para duas ou mais!). É melhor aceitar que a alma começa a existir quando emerge a consciência, que ocorre bem depois da fertilização, e isso resolveria esta objeção, mas há outros problemas com a divisão da consciência.



            
           A operação da “comissurotomia hemisférica” e sua interpretação como produzindo potencialmente dois centros de consciência (divisão da consciência), também desafia a visão cartesiana da alma: a alma da pessoa que passa por tal operação poderia ter se dividido, mas resultando em duas outras almas (e eliminando a original, o que sugeriria assassinato!); ou a alma original se circunscreveria a um dos lados (o lado verbal), mas então uma nova alma foi criada para o outro lado; ou haveria sempre duas almas em cada cérebro, com o mesmo campo de consciência, rompido pela operação. Mas se existem dois centros separados de consciência e cada um experimenta estados conscientes não acessíveis ao outro, eles não podem ser partes da mesma alma.

Conclusão sobre a concepção metafísica:

Uns 200 anos de ciência (metodologia baseada em evidências) e reflexão filosófica modernas (naturalismo filosófico), combinados com os resultados mais recentes das bases cerebrais da consciência (neurociência e neurofilosofia), sugerem  que, se nos restringimos a razões e argumentos melhor do que meras hipóteses, é melhor descartarmos a ideia de que somos essencialmente - ou que temos - almas ou espíritos não físicos.
Mas se não somos organismo e nem almas, o que nós somos?


A concepção psicológica

Quando se descarta a visão biológica normalmente se aceita uma versão psicológica que nos identifica como pessoas, seres com capacidades cognitivas, emocionais e volitivas superiores às formas mais simples e rudimentares de consciência. Quem seria o responsável por atos bons ou ruins senão a pessoa que pode ser identificada como mentora dos atos? Mas traços de caráter, memórias, desejos formam um feixe de conteúdos psíquicos que seríamos nós, essencialmente. Isso porém parece não ser o caso: podemos imaginar duplicações destes mesmos conteúdos em um outro organismo precedido da destruição do nosso e não pensamos que passamos a existir na réplica.


 
(Para a visão psicológica da identidade, somos nossos conteúdos psíquicos biográficos)


Não temos a mesma preocupação egocêntrica por réplicas corporais e psicológicas idênticas, se comparada com a que temos por duplicatas com o mesmo cérebro funcional: logo, o que importa mais não é a continuidade psíquica, mas a continuidade psíquica com o mesmo cérebro.

Caso 1: Teletransportation. 

One enters a “scanning booth” and presses a button. The Scanner records information about the exact states and structural relations of all of thecells in one’s body. This process causes the instantaneous disintegration of one’sbody. The information thus obtained is then transmitted by the speed of light to a “replicating booth” at some distant location where the Replicator instantly creates, out of new matter, an exact, cell-for-cell duplicate of one’s original body. The person who emerges from the replication booth is exactly similar, both physically and psychologically, to oneself as one was when one pressed the button in the scanning booth.

Neste caso: é a réplica o mesmo indivíduo que aquele primeiro escaneado e destruído? Para Parfit, sim e não: se temos uma versão ampla de identidade como continuidade psíquica não-ramificante com qualquer causa, SIM, ela é o mesmo indivíduo (teletransporte é só um modo muito rápido de transporte); se temos uma versão estreita de identidade como continuidade psíquica com sua causa normal – ou seja, a continuidade funcional das áreas relevantes do mesmo cérebro de alguém – então, NÃO, a réplica não é a mesma pessoa. Parfit é indiferente porque o que conta não é a identidade e basta a continuidade psíquica. MacMahan não concorda.

            Vejamos outros casos:

Caso 2 The Suicide Mission
In a time of war, one has been chosen to carry out a militarymission that will involve 
certain death. Although the operation of the Replicator is very expensive and has therefore 
been strictly rationed, one’s superiors have granted one the privilege of having a replica of 
oneself made prior to the mission. They will also allow one to choose, prior to the process 
of replication, whether one will go on the mission oneself or whether the replica will be sent. 
(Because one is a dutiful soldier, one’s replica will be dutiful as well. 
One knows that if ordered, he will go onthe mission.)

Quem escolhemos para a missão, nós ou a réplica? Para Parfit, tanto faz! Mas o que nós realmente escolhemos, e por que?

Caso 3 Multiple Replication. 

Extortionists, having acquired control of a Replicator, have
obtained one’s cellular blueprint via long-distance scanning. They threaten that, unless
one transfers all of one’s wealth to them, they will create multiple replicas of
oneself whom they will then torture and kill.

Pagaríamos todo nosso patrimônio para salvar, por razões egocêntricas, nossas réplicas?

Caso 4 The Nuclear Attack. 

One is an employee at the Pentagon, which has a Replicator capable of transmitting one’s cellular blueprint to a replicating booth in Alaska. One receives confirmation that a nuclear missile, targeted on the Pentagon, has penetrated the country’s defenses and will obliterate the entire area within a minute. That is justenough time to have oneself scanned and for the data to be transmitted to Alaska.

Somos indiferentes ou achamos melhor ter a réplica do que não tê-la?

Segundo McMahan nossa hesitação tem a ver com o que ocorre conosco e não com a réplica! Em todos os casos haverá conexão psicológica forte e continuidade psicológica direta entre o modelo e a réplica, e então tais relações psíquicas e mesmo a continuidade psíquica não é tudo que conta: deve haver algo mais! O que seria?

McMahan sugere que chave está na diferença entre a duplicação (com transplante do mesmo cérebro) e a replicação de duas cópias por teletransporte tradicional (com destruição do primeiro organismo, mas duplicação psicológica exata).

“To repeat: most of us agree that what matters is present in the relation between
the original person and both of his successors in the case of Division; but many of us
do not find a basis for egoistic concern in the relation between the original person and
his replicas in the case of Double Replication. The difference between the cases is
that, in the case of Division, psychological connectedness and continuity are grounded
in the physical and functional continuity of the parts of the brain in which consciousness 
and mental activity are realized; whereas, in Double Replication, psychologicalconnectedness 
andcontinuity have a different cause—namely, the replication of the relevant areas of the brain. 
This difference appears to matter: it seems to make a difference whether psychological connectedness 
and continuity are grounded in the continued existence and functioning of the relevant areas of the same brain.” (p. 59; grifo meu).



Mas há mais problemas: se somos pessoas associadas ao organismo, e se o organismo é consciente e senciente por causa de seu sistema nervoso e de seu cérebro, teríamos dois seres sobrepostos em cada organismo que revelasse também um provável ser pessoal. Isso está ligado à ideia estranha de que não somos animais, não começamos existir a não ser em torno de dois anos de idade, e não continuamos a existir se não temos mais conexões psicológicas com nosso passado ou perdemos tais traços cognitivos superiores, mas como relacionar então uma pessoa com o feto e o recém nascido que precede o aparecimento da pessoa, e com o ser humano posterior à vida com capacidades psicológicas, como o paciente com Alzeimer?






A concepção da mente incorporada

Mas há uma visão que está entre a visão biológica e a visão psicológica, e é a que entende que somos essencialmente sujeitos de uma vida mental realizada pelo - ou no - nosso cérebro. McMahan a chama de mente incorporada. Para tomar o caso da demência progressiva, quando nosso cérebro deixar de gerar consciência nós teremos deixado de existir, pois não haverá mais um sujeito de experiência ou alguém no organismo. Nós em geral aceitamos o critério de morte encefálica para transplantes, mas o transplante mata o organismo que ainda vive sustentado por aparelhos. Logo, não nos identificamos exatamente com o organismo mas com nosso cérebro funcional. Muitos de nós e a maioria em países avançados aceita o aborto de um feto precoce, quando ele ainda não têm um cérebro funcional e por isso não pode sentir nada nem ter consciência.

 "Isto sugere que você é essencialmente uma entidade com a capacidade
para consciência - uma mente. Um organismo humano é consciente
somente em virtude de ter parte consciente. Nós somos aquela parte. 
Nós somos aquilo que é não derivadamente o sujeito da consciência."
(McMahan, Killing Embryos for stem cell research, 2007: 186)



Essa visão está de acordo com os resultados das ciências, das neurociências em especial, e é filosoficamente bem sustentada, então é melhor do que a metafísica (almas). A visão mentalista também pode incorporar os atrativos da visão psicológica, pois uma mente como a nossa, em situação normal, é uma pessoa, com a vantagem de relacionar-se melhor com a suposta pré-pessoa e a suposta pós-pessoas nos casos dos fetos de pacientes dementes, ser intuitivamente mais adequada nos experimentos de pensamento, e praticamente biológica, pois assim como alguém pode nos chamar de mentes, alguém (o ET de Varinha, por exemplo) também pode nos chamar de cérebros ou córtex cerebral.

Porém, se somos mente ou cérebro, nós não seríamos animais, pois um animal é um organismo biológico, e novamente, parece que temos um tipo de dualismo no mesmo espaço e tempo: um animal (organismo) e uma mente (a manifestação das capacidades subjetivas), mas o animal é quem sente, pensa, percebe. Então haveria dois seres conscientes sobrepostos? Como saber qual está pensando ou agindo neste momento em que você lê este texto? Supercomputadores provavelmente desenvolverão mentes, e então seremos como eles? Como possíveis extraterrestres (o ET de Varginha, por exemplo)? Isso soa contra-intuitivo, pois novamente, não somos animais, mas apenas parte de um animal (ou meramente constituídos por um anima). Os professores de biologia ensinam algo falso em suas aulas sobre os animais humanos e outros? Há ainda um problema para o método dos experimentos de pensamento neste caso: eles não dizem necessariamente que somos uma mente ou uma pessoa, mas que nos identificamos como tais em situações deste tipo, quando escolhemos aspectos mentais e subjetivos para sobreviver a transplantes e a replicações, mas disso não se segue que realmente sejamos uma mente ou uma pessoa, mas que temos medo de perder uma chance. Como será que McMahan responderia a tais questionamentos?

Identidade:


Nossa identidade é essencialmente a de uma mesma mente produzida pelo mesmo cérebro (a mente é individuada por referência a sua incorporação física, ainda que isso seja apenas condição necessária, mas não suficiente para que a mesma mente continue). Vimos que o mais conta nos experimentos de pensamento sobre replicação não é a continuidade dos conteúdos de nossa vida psicológica, mas a continuidade ou “mesmidade” desta nossa capacidade de ter consciência.
            
            Podemos falar de 3 tipos de continuidade de nossa cérebro: continuidade física (os mesmos constituintes materiais ou gradual substituição destes no tempo), funcional (relações do cérebro com capacidades psicológicas como a consciência) e organizacional (preservação dos tecidos cujas configurações subjazem conexões e continuidades entre os conteúdos psicológicos). Para a abordagem psicológica, não precisamos pressupor a continuidade física se pudéssemos manter a organizacional. Para a abordagem da mente incorporada precisamos, pois é uma condição suficiente para a preocupação egocêntrica, e, logo, grosso modo, para a nossa identidade.


Preocupação consigo mesmo


Considere dois casos imaginados por Parfit para demonstrar que não importa a continuidade física: 


"(1) In Case One, the surgeon performs a hundred operations. In each of these, he removes
a hundredth part of my brain, and inserts a replica of this part."
                                        &
(2) In Case Two, the surgeon follows a different procedure. He first removes all of the
parts of my brain, and then inserts all of their replicas."


            A maioria de nós não concluiria como Parfit: haveria base para se preocupar consigo no caso 1 e preferi-lo, e não haveria no caso 2, do mesmo modo que não nos preocupamos com as réplicas que não mantém o mesmo cérebro.
            
            Mas o espectro entre 1 e 2 sugere também que há graus (quanto mais diferentes tecidos em um tempo mais curto, menos preocupação) nessa intuição e graus que dependem em parte da continuidade psicológica resultante (o grau de preocupação varia de acordo com a continuidade organizacional).
            
              Há casos reais envolvendo perda cerebral e maior perda das capacidades funcionais e organizacionais, e então as últimas entram em nossa visão da preocupação egocêntrica. Tal continuidade organizacional pode ser de dois tipos: manifestação do mesmo estado mental em tempos diferentes; e estados mentais que além de ocorrerem em tempos diferentes contém referência interna a outro estado mental (há pouco do ser segundo tipo no cão de McMahan, por exemplo). Uma criatura exclusivamente senciente (consciente) mas não autoconsciente nem em posse de memórias passadas e planos futuros articulados entre si está vinculada mais às experiências que ocorrem no presente imediato do que a si mesmo como sujeito dessas experiências, e, logo, pode ser substituída por outra com as mesmas experiências. 

(Parece ser o caso de fetos e pessoas com grave perda da memória – ver os casos citados por Oliver Sacks - parecem se encaixar proximamente neste tipo de criatura). 

Isso pode ficar mais claro com o seguinte caso hipotético

The Cure. Imagine that you are twenty years old and are diagnosed with a disease
that, if untreated, invariably causes death (though not pain or disability) within five
years. There is a treatment that reliably cures the disease but also, as a side effect,
causes total retrograde amnesia and radical personality change. Long-term studies
of others who have had the treatment show that they almost always go on to have
long and happy lives, though these lives are informed by desires and values that differ
profoundly from those that the person had prior to treatment. You can therefore
reasonably expect that, if you take the treatment, you will live for roughly sixty more
years, though the life you will have will be utterly discontinuous with your life as it
has been. You will remember nothing of your past and your character and values will
be radically altered. Suppose, however, that this can be reliably predicted: that the
future you would have between the ages of twenty and eighty if you were to take the
treatment would, by itself, be better, as a whole, than your entire life will be if you
do not take the treatment.


            McMahan estranhamente diz que a maioria de nós escolheria viver 5 anos como a mesma pessoa, psicologicamente falando, do que 60 como outra pessoa: se você prefere 60 como outra pessoa, então você pode duvidar que a unidade psicológica está entre as relações de unidade prudencial (preocupação racional consigo mesmo); se prefere 5 como a mesma, você acredita que a identidade é a base da preocupação egoística e que a unidade psicológica e parte da prudência. Mas quando um feto morre não manifestamos o mesmo pesar que quando um ser humano jovem ou adulto morre, apesar de que a quantidade de bem (amount of good) perdida é muito grande no caso do feto: isso só se explica bem se aceitamos que a unidade psicológica está entre a relação de unidade prudencial, que funciona como um multiplicador que é menos ou nulo no caso em que ela não existe, e isso é a base da ideia de interesses temporalmente relativos.
            


Individuação das mentes.


Há ainda questões sobre a unidade da mente: se o mesmo cérebro pode sustentar a existência de mais de uma mente (ao mesmo tempo, ou mentes diferentes em tempos diferentes).

Na comissurotomia a maioria dos observadores e dos pacientes acredita que há uma mesma mente, com unidade subjetiva substancial. Porém um hemisfério não tem provavelmente acesso direto a eventos conscientes do outro, eles encontram meios de se comunicar, e parece já bem documentado que há dois centros distintos e separados de consciência.


Podemos ter todos dois centros, e a cirurgia apenas ressalta mais isso. Mas não há nada para se pensar isso porque antes da cirurgia há um mesmo campo de consciência e a cirurgia parece atuar dividindo tal campo.
Ou há duas mentes ou uma mente com dois campos de consciência. Mas isso coloca em dúvida como podemos individuar mentes (o que faz com que dois ou mais campos de consciência sejam uma e mesma mente?). Não é que ambos sejam gerados no mesmo cérebro, o que nos revela o caso do comportamento anômalo (por exemplo, o que a mão direita faz, a esquerda desfaz; vide o caso das irmãs Hensel). Parece que há duas mentes presentes e se há depende do grau de integração entre os vários eventos mentais.

E sobre duas mentes serialmente (em tempos diferentes?) (1) substituição de regiões do cérebro responsáveis pela consciência por outros tecidos que fazem isso: há o mesmo cérebro mas mentes diferentes. (2) A região foi destruída mas, com a reconfiguração de outras regiões para gerar consciência: idem. (Outro caso seria o do paciente com possíveis personalidades múltiplas).




Mente, Cérebro e Organismo


Mente & Cérebro idênticos (M = C) ou em relação de dependência causa (C à M): compatibilidade da abordagem da mente incorporada com teorias da identidade, teorias funcionalistas, dualismo de propriedade, teoria do aspecto dual, e outras, exceto o dualismo de substância [e a metafísica, dados o naturalismo, evolucionismo e as evidências sobre Cà M].

- Mente e Organismo: M # O (não há relação de identidade para a abordagem da mente incorporada).

Mas a várias interpretações: “constitutivismo”, “dualismo radical”, “holismo”.




Para McMaham somos uma parte de um organismo (o córtex cerebral): como a buzina e o carro (buzina emite som e o carro emite som com ela!) e o galho e a árvore (o galho cresce e a árvore cresce com ele!), é meu organismo que sente, pensa e percebe, mas com a parte consciente que realiza tais eventos, o organismo é consciente em sentido derivado; a parte não é o mesmo que o todo e por isso eu não sou idêntico ao organismo que eu animo [não sou um organismo mentalizado] nem sou constituído por um organismo, e posso manter minha integridade e identidade ao lado do todo orgânico (sou uma entidade distinta e independente do organismo).


 (Um belo organismo, não?)



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