quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Teoria Ética

Draft 1 -- Teoria Ética

Um dos instrumentos ao alcance dos bioeticistas é a teoria ética. Uma teoria ética é uma teoria sobre a natureza e a lógica dos conceitos morais. Ao contrário de uma teoria moral, a teoria ética não inclui entre seus postulados nenhum princípio moral substantivo. Que devemos aumentar o bem estar geral é um princípio moral substantivo, e faz parte então da teoria moral. Que juízos morais são necessariamente universalizáveis (valem para todas as situações idênticas em suas propriedades descritivas) é um princípio meramente lógico, e faz parte da teoria ética. Tal teoria deve desenvolver a lógica do raciocínio moral. 

Tal lógica tem duas regras, a (citada acima) universalizabiidade (U) e a prescritividade (P) de juízos normativos. P exige que não haja inconsistência entre o juízo universal (como o juízo moral sobre o que devo fazer em tal situação) e o juízo particular a que dou assentimento pratico. U exige que o juízo moral possa ser querido universalmente, ou seja, ser querido por nós em todas as posições afetadas como se fossem as nossas posições. As prescrições resultantes da aplicação desta lógica aos fatos de qualquer situação moral são as prescrições a que pensadores morais racionais chegariam ao deliberarem adequadamente, e, neste sentido, são prescrições objetivas. 



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O filósofo Harry Gensler escreve que se tornou um aficionado no estudo da regra de ouro depois de ouvir uma palestra de Hare e ler seu livro Freedom and Reason duas vezes na mesma semana. Ele, como Hare, pensa que há uma lógica para os debates morais, e que a universalizabilidade é seu componente central.

A Regra de Ouro (Trate os outros apenas como você aceita ser tratado na mesma situação) ordena consistência. Ela exige um ajuste entre meu ato em relação ao outro e meu desejo sobre como ser tratado na mesma situação dele. A regra de ouro não substitui outras normas morais ou dá todas as respostas. Ela não diz o que fazer (e assim não ordena más ações se temos maus desejos). Ao invés, ela proíbe uma combinação inconsistente. Não combinar:
(1)   “Fazer algo a outra pessoa” e (II) “Não quero que isto seja feito a mim na mesma situação”. (2013:.2)

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Só faremos boa bioética (e boa ética prática em geral) se não formos relativistas, já que prescrições morais objetivas não dependem do nosso assentimento ou de nossa sociedade, e servem de padrão para criticarmos decisões subjetivas nossas ou de nossa sociedade. Mas o raciocínio moral puro, que se baseia só na lógica (a lógica das prescrições universais) e nos fatos (os fatos naturais presentes em uma dada situação), não é o raciocínio moral completo, e não deve ser usado senão em momentos de calma reflexão, com o devido acesso aos fatos, e cuidadosa ponderação sobre cursos alternativos de ação, o que não é o caso nas nossas deliberações e ações cotidianos sob estresse. 

Sob estresse usamos um raciocínio que inclui normas morais gerais e disposições da vontade (traços de caráter) - um raciocínio intuitivo -, e devemos usar tal mecanismo, pois do contrário muito provavelmente tomaremos más decisões. Porém, para justificar estas normas e disposições, para adjudicar entre normas em conflito, e para solucionar casos novos, só apelando para o nível crítico, em que só entram fatos e lógica no input. A normatividade será o resultado.

Mas a ética não depende da religião? Não, ela não depende. A religião também tem o ônus de explicar e justificar por que dada ação deve ser aprovada e praticada, com a mesma lógica do raciocínio moral acima. Se não se retira da moral toda base racional, toda sua força motivacional e lógica próprias (o que inclui operacionalizar a fala e o pensamento em que nos colocamos no lugar as pessoas afetadas pelas nossas ações de modo relevantemente prático), e de Deus, toda razoabilidade. (Ele passaria de um ser razoável que entende as razões para se ditar uma certa norma a um ser que age segundo seu bel prazer).


Se nós não separamos moralidade e vontade divina arbitrária, “o único conceito da vontade divina que ainda nos restaria teria de fazer das propriedades da ambição de honra e de domínio, ligadas às imagens terríveis do poderio e da vingança, o fundamento de um sistema dos costumes exatamente oposto à moralidade”. (Kant, 2007, p. 89)

terça-feira, 10 de junho de 2014

Russ Shafer-Landua sobre metaética e Arbitrariedade

Cap. 8 – Arbitrariedade
O ceticismo garante que a moralidade não tem embasamento e se assenta em fundamentos arbitrários (= que não são sustentados suficientemente por boas razõe). Como já vimos, para o niilismo nada é exatamente correto ou bom moralmente, pois tais adjetivos não são como outros adjetivos reais (vulcânico, líquido, angular etc.), são conceitos para crenças humanas (não se deve matar é algo arbitrário neste sentido de não ser algo real, mas irreal).

Já o Subjetivismo e o Relativismo dão algum espaço para obrigações morais, mas tais obrigações variam de pessoa para pessoa ou de sociedade para sociedade, pois o que é certo ou errado é como a cor favorita de alguém, ou seja, em essência, é algo arbitrário, e isto, para Shafer-Landau, dá licença mesmo aos mais terríveis tipos de comportamento, já que são os gostos e desgostos de cada um (ou de cada sociedade) que embasam a moral.

Para o relativismo os gostos dos indivíduos são avaliados por um padrão acima deles, mas tal padrão é a sabedoria cultural que prevalece em dada sociedade, ou o consenso social, e não há base para avaliar e criticar tal coisa. Qualquer que seja tal consenso, ele estará certo, o que significa, isto é o que dá o embasamento, e isto é algo para o qual não se precisa apresentar boas razões independentes.

O Objetivismo elimina a arbitrariedade reivindicando que tanto os gostos individuais quanto os consensos sociais básicos devem passar pelo escrutínio racional, em especial, que os padrões convencionais podem ser falsos ou verdadeiros segundo razões que não se reduzem ao gosto individual ou consenso social que os endossa. Por exemplo, tome o ódio aos homossexuais, a homofobia. Há quem odeia a homossexualidade simplesmente porque odeia, porque é seu gosto. Há quem o faça porque sua cultura sempre reforçou tal sentimento, e isto torna seu ódio correto. Mas ambas as coisas para o objetivismo estão sujeitas à avaliação de que tal atitude pode ser realmente errada, independente dos gostos e desgostos. A tradição não tem papel importante como o tem no Subjetivismo e no Relativismo. O mesmo para a discriminação das mulheres que aceitam papéis subordinados: isso pode ser apenas sinal mais de uma boa doutrinação e manipulação feita pelos homens do que de aceitação por parte delas.

Assim, enquanto para o Niilista não há boas razões independentes para se adotar certa ação, e para o Subjetivista e o Relativista as boas razões são aquilo que os seres humanos endossam, para o Objetivista “a melhor razão para se adotar um padrão é sua verdade”, e verdade é algo que não depende da opinião, mas algo que serve para julgarmos a opinião.

Logo, é possível escapar da arbitrariedade apenas se o Objetivismo ético for verdadeiro.

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1 - Tente defender o ceticismo defendendo o ponto principal do objetivista sem abandonar a posição cética.
2 - Tente atacar o objetivismo atacando-o do mesmo modo que ele ataca o cético.
3 - Conseguiu? O que resultou disto, em sua opinião? Há outros pontos a apresentar?

Shafer-Landau sobre metaética e dogmatismo.

6. Dogmatismo

Shafer-Landau tem certeza que não é o objetivismo ético, mas sim o ceticismo, que é a concepção que permite o maior espaço para o dogmatismo e a intolerância. 

Normalmente objetivistas são arrogantes (talvez eu, por exemplo). E céticos são gente fina, muito tolerantes (o Zé Maria, por exemplo). 

Mas, pensando bem, nos sugere Shafer-Landa, há ao menos dois problemas neste cenário: o objetivismo ético não autoriza por si só, a arrogância (os matemáticos acreditam em verdades matemáticas, e isso não autoriza serem arrogantes e intolerantes; eles em geral também são gente fina). 

Como na ciência, o objetivismo assume que na ética tentamos registrar os contornos de uma realidade maior, que é independente de nossas opiniões subjetivas ou de nossos costumes culturais, uma realidade moral. 

É a realidade o que gera a sensação de maravilha, mistério e enormidade da tarefa de pensar e conhecer o mundo.

O Niilista já sabe de antemão que nada é certo ou errado moralmente, seja o que for que seja defendido. Com isso, qualquer proposta dogmática está de antemão rejeitada. Ótimo! Mas qualquer proposta em favor da tolerância, da liberdade, da auto limitação também estarão de antemão rejeitados. Nada bom... O erro do dogmatismo não é um erro moral, porque não existe tal coisa, o acerto da mentalidade aberta e tolerante não é acerto moral, porque não existe tal coisa.

Os Subjetivistas sustentam que cada indivíduo é a medida da verdade moral, logo, há pouco espaço para erro (talvez quando um desejo conflita com outro, ou quando há crenças falsas). Se nós aprovamos individualmente uma ação, nós nunca estaremos errados.

Os Relativistas Sociais permitem um pouco mais mais de espaço para o erro, pois agora, não só existe o certo e o errado, mas ele não depende de cada indivíduo, que pode não captar ou praticar o que a sua sociedade realmente pensa acerca do que é certo e errado. Mas se ele estiver bem antenado com sua sociedade, haverá também pouco espaço para o erro, e a autoconfiança e dogmatismo dependerão então desta sintonia. (A sociedade decide? Hum, nada bom, ainda que eu sempre encontre chineses que não veem nada de mau nisso, e o Zé Maria vive me dizendo que o individualismo liberal é coisa da sociedade burguesa em que vivo.)

Mas vejam: Os objetivistas, como eu e o Shafer-Landau, são os que dão o maior espaço para a possibilidade de erro, pois não é nem o indivíduo nem a sociedade que definem ou estabelecem a moralidade, a verdade não é construção humana, e por isso, será mais difícil de descobrir ou discernir. Haverá menos autoconfiança e menos dogmatismo nesta concepção, se bem compreendida, do que nas céticas.

"Não há melhor antídoto contra nossa arrogância e soberba que o reconhecimento de que nós não somos os autores da lei moral". (p. 29).

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1 - Em que sentido há menor chance de erro nas posições niilista, subjetivista e relativismo do que na objetivista?
2 - Em que sentido há maior chance de acerto?
3 - Dá para pensar o oposto? Com que argumento e exemplo?

Russ Shafer-Landua sobre metaética e tolerância.


Cap. 7 – Tolerância

A maioria dos estudantes do ensino superior pensam que a posição padrão na filosofia moral de hoje é o ceticismo ético, mas não pensa assim por causa de um argumento sólido, mas em grande parte porque é estranho pensar que juízos morais poderiam ser objetivos. 

Mas entre os argumentos endossados, está é o argumento a partir da tolerância. 

Uma primeira versão porém parte do próprio ceticismo (1): Se o ceticismo é verdadeiro então devemos ser tolerantes com todas as visões morais; ora, o ceticismo é verdadeiro; logo, devemos ser tolerantes com todas as visões morais.

Porém, (i) este argumento assume como verdadeiro algo que precisaria ser demonstrado, que o o ceticismo ético é verdadeiro. Assim, ele não é um argumento em prol do ceticismo, mas a partir dele, e não mostra por exemplo, que o ceticismo é o único candidato compatível com a tolerância. (Imagine substituir ceticismo por objetivismo, o argumento também funciona, ao menos se entre os juízos que não dependem da nossa opinião ou do consenso social, estiver um que diga que devemos ser tolerantes).

(2) Uma outra versão, mais forte, do argumento é: quem adota a tolerância deve ser eticamente cético; nós devemos adotar a tolerância; logo, devemos ser céticos. Uma variação: Se o objetivismo fosse verdadeiro, algumas visões seriam inferiores a outras e estaria ok tratá-las assim; isso contraria a tolerância; logo, o objetivismo não adota nem defende a tolerância. 

Tudo isso porém é um equívoco, pois não se pode concluir, da ideia de que algumas visões são moralmente ruins ou inferiores, que está tudo bem em tratá-las como inferiores (isso é um non sequitur!). Por que? Porque confundem-se aqui duas perguntas diferentes. A primeira, uma visão moral de alguém ou de uma sociedade é correta (ou justa, ou adequada, ou boa)? A segunda, se ela não o é for, o que devemos fazer a respeito? (Defender que a mutilação de meninas é errada não implica endossar o envio dos marines americanos para que invadam os países em que isso está ocorrendo!)

O objetivismo ético está comprometido apenas com a tese de que o certo e o errado não dependem exclusivamente de nossos gostos individuais ou de nossas tradições sociais e arranjos sociais.
Mas com isso, os objetivistas podem embasar muito fortemente a tolerância, por exemplo, como um valor objetivo independente.

Mas há mais coisa: o ceticismo ético é incompatível com a tolerância, se bem compreendido: p. 32 # 1: Se o ceticismo está certo, então nenhuma recomendação moral é verdadeira (nihilismo), ou independente dos gostos individuais (subjetivismo) ou coletivos (relativismo); logo, a recomendação de tolerar ou é uma ficção (N), ou é uma das opiniões contingentes nossas ou de nossas sociedades. Mas isso não será uma boa notícia para quem realmente valoriza a tolerância, por exemplo, luta por ela em lugares onde ela não existe.
Se toda recomendação é falsa (teoria do erro), aquela que diz para tolerar também é falsa, e está ao par com a recomendação de ser intolerante; se o certo e o errado estão nos olhos de quem vê, quem vê a intolerância como certa não estará fazendo nada de errado, ao contrário, estará inclusive fazendo seu dever; e se adotamos o relativismo social, a tolerância só será valiosa nas sociedades que a tornaram um valor fundamental, mas não naquelas que reprimem, perseguem, queimam livros de opositores (e opositores). Numa sociedade intolerante, você deve ser intolerante para cumprir seu dever, caso o relativismo seja verdadeiro.

Os céticos em geral consideram a tolerância algo bom, mas só o objetivismo dá embasamento seguro a tal valor. Por que? Porque a tolerância não dependerá apenas do gosto individual ou do consenso social, e caso o indivíduo ou sociedade sejam intolerantes, pior para eles, pois estarão errados moralmente. É melhor abandonar a ideia de que o certo e o errado dependem, como palavra final, do indivíduo ou da sociedade, concluir Shafer-Landau.

"Se você acredita que todos são detentores do direito ao respeito, a certa parcela de liberdade pessoal, e a um conjunto básico de direitos humanos, então seria melhor você abandonar a ideia de que os indivíduos ou sociedades detêm a palavra final na ética. O objetivismo pode confiantemente sustentar essas proteções morais centrais. O ceticismo não pode". (p. 33)

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Deus e o problema do mal no universo




 O problema mais impressionante para a crença em Deus é o chamado problema do mal. Trata-se do problema da incompatibilidade entre a existência de males e sofrimento abundantes e gratuitos, e a existência de um Deus todo poderoso e sumamente bondoso. A grande quantidade, e elevada magnitude, de sofrimento e danos naturais (tsunamis, terremotos, fomes endêmicas, etc.) ou sociais (genocídios, guerras, crimes hediondos etc.) aparentemente gratuitos, de que são vítimas seres humanos, especialmente crianças e idosos, além de outras criaturas senscientes, como os animais não humanos, parece ser incompatível com a crença em um Deus de amor.


           O chamado argumento a partir do mal é mais ou menos assim: Premissa 1) Se houvesse um Deus onipotente e sumamente bondoso, então não haveria males e sofrimentos como os citados acima. Premissa 2) Ora, há tais males. Conclusão: Logo, não há um Deus onipotente e sumamente bondoso. Como em todo argumento válido, a verdade das premissas implicará na verdade da conclusão. Assim, para a conclusão ser falsa, a premissa 1 ou a 2 (ou ambas) tem de ser falsa. Por exemplo, pode ser que não seja o caso que existir um Deus bondoso implique que não haja o mal no universo (e a premissa é seja falsa). Ou pode ser que não exista o mal (e a premissa 2 seja falsa).

           Uma primeira tentativa é recusar a premissa 2. Negar que haja o mal horrendo, ou um que seja abundante e gratuito. Normalmente filósofos e teólogos admitem a realidade do mal, e não questionam esta premissa. Seria contra intuitivo negar que a morte de 1 milhão e meio de crianças judias em campos de concentração nazistas, ou a morte de duzentas mil pessoas, sem contar animais, num tsunami no sudoeste da Ásia, ou o sofrimento e agonia de bilhões de animais até hoje desde seu aparecimento, não sejam males horrendos e males sem sentido. Assim, em geral se tenta encontrar alguma forma de compatibilizar a existência de um Deus onipotente e bondoso, com a existência dos males horrendos no universo. 




Mas esta segunda tentativa, de recusar a premissa 1, não tem muito que a recomende racionalmente. Suponha que há um orfanato. Neste orfanato falta de tudo e as crianças passam necessidades. Mas há uma porta fechada na qual está inscrito Diretor. As crianças e os funcionários nunca viram o diretor, nem abriram a porta, que está trancada. Mas mesmo assim, acreditam que ele existe, tem tudo sob controle, conhece a situação do orfanato, e é uma pessoa muito bondosa. Mas se ele existe, é bom, e pode solucionar os problemas do orfanato, por que não o faz? Parece mais sensato duvidar que ele realmente exista. Assim também, diante do mal horrendo, parece mais sensato duvidar que um Deus onipotente e bondoso exista.



Pense nesta forma invertida de explicar o argumento, que chamarei de argumento do bem contra a existência de um Deus malévolo. Se existe um Deus malévolo, então por que existe o bem? Não será o bem ao menos um indício forte de que um tal ser assim não existe? Em geral pensamos que Deus é bom exatamente porque há tanta coisa boa no universo. Mas se você pensa assim, você tem de também pensar que os males e sofrimentos abundantes e desnecessários são um indício forte de que não existe um Deus onipotente e bondoso. O argumento do mal é o mais difícil problema para quem crê em Deus, e para quem pondera se deve ou não acreditar.