domingo, 7 de outubro de 2012

A exigência do respeito pelas pessoas e a bioética do ato de matar


Hand-Out para o capítulo 3 de McMahan , "Killing", The Ethics of Killing.

Por: Maria Bernadete Jeha Araújo (Doutorando em Ciências da Saúde, UFU)

Item 3.2- A exigência do respeito pelas pessoas

McMahan inicia falando que se a tese de igualdade do erro estiver correta ( todos os atos de matar pessoas são igualmente errados) , seria um argumento fatal para a abordagem do interesse temporalizado, desde que as pessoas manifestassem diferenças em relação ao interesse em continuar vivendo.  Mas se o interesse de cada pessoa em continuar vivendo fosse igual ( o que ele acha um absurdo) as duas teorias seriam compatíveis.

Para defender a hipótese de um interesse temporalizado com a mesma força entre pessoas ele alega que esta força é função das relações de unidade prudencial e do valor da vida.  A relação de unidade prudencial entre a pessoa agora e ela mesma no futuro varia muito pouco, geralmente apenas quando há queda da cognição.  O valor da vida que ele teria caso vivesse obedece um principio do igualitarismo liberal, de que as vidas de  todas as pessoas tem o mesmo valor. Através destas variáveis poderia se concluir que todas as pessoas teriam o mesmo interesse temporalizado em continuar vivendo

Apesar do dito acima, o autor defende a seguir que a teoria que todas as vidas tem o mesmo valor levando portanto ao mesmo interesse temporalizado, representa um equívoco.  Para justificar usa dois conceitos. O primeiro , chamado de “valor de uma vida”, fala que este é determinado pela dignidade dos seus conteúdos , pelo que ela vale para a pessoa que a vive.   O segundo, denominado “dignidade do individuo”,  atribui valor ou dignidade ao sujeito que a vive e não ao seu conteúdo. Este último conceito é mais compatível com a idéia de que todas as pessoas teriam o mesmo valor.

Ainda segundo o conceito de “dignidade do individuo”,  o autor questiona se o que há de ruim na morte é proporcional a dignidade da vítima. Se todas as pessoas tivessem sempre uma dignidade positiva, a morte sempre teria que ser considerada ruim, o que na opinião do autor não é verdadeiro. Portanto o que há de ruim na morte está mais relacionado com os conteúdos da vida futura  de uma pessoa.  E o valor destes conteúdo variam de pessoa a pessoa.  Assim nem todas as mortes são igualmente ruins. Como a força do interesse temporalizado em continuar vivendo varia de acordo com o quão ruim a morte seria para aquela pessoa , ele não pode ser igual entre as pessoas , tornando se incompatível com o senso comum de que todo ato de matar é igualmente errado.

Já o que há de errado em matar não se relaciona com o interesse temporalizado em continuar vivendo ou  com o grau do dano que a vitima sofreria ao morrer, mas sim de acordo com a dignidade da própria vitima.  Isto é chamado de abordagem do valor intrínseco.Como cada pessoa é um ser dotado de dignidade e merece respeito , matar seria um crime contra a exigência de respeito às pessoas e à dignidade delas. Mas o que seria esta dignidade? Seriam propriedades que diferenciam uma pessoa de um animal. McMahan alega que estas são capacidades psicológicas. E a perda destas capacidades levariam a perda do status de pessoa.  Em relação ao respeito ele afirma que a pessoa não o conquista por suas realizações, que ele é atribuído pelo fato de ser uma pessoa. Portanto se ele não é conquistado pelos atos . ele também não pode ser perdido pela mesma razão.  Não é porque as pessoas são más ou fazem algo mau , ela perdem a dignidade ou o direito ao respeito. O autor frisa que embora as capacidade psicológicas sejam a base do respeito, estas condições são atribuídas às pessoas e não as capacidades.  

Como as pessoas tem sua dignidade baseada nas capacidades psicológicas ( cognitivas e emocionais), a abordagem do valor intrínseco  justifica que o ato de matar pessoas é mais grave do que o de matar animais, tendo em vista que estes teriam formas rudimentares destas capacidades ou não as teriam.  Por isso o ato de matar animais seria menos condenável moralmente. Este escalonamento também se aplica a animais com capacidades psicológicas superiores e inferiores. Mas os indivíduos com maior dignidade tendem também a ter vidas com maior valor e a sofrer maiores danos com a morte do aqueles com menor dignidade. Nesta situação a abordagem do valor intrínseco coincide com a abordagem do interesse temporalizado. A abordagem do valor intrínseco aceita que o número de vitimas afeta a medida em que o ato de matar está errado.

Objeções a visão da abordagem do valor intrínseco –

1-      Erro que há em matar varia de acordo comm a dignidade da vitima, ignorando o grau de dano infligido. Por ex: dois cães com as mesmas capacidades psicológicas, sendo um mais velho e outro mais jovem.  Esta visão encontra problemas no conceito de dignidade extraído de Kant, que diz que dignidade é algo absoluto, que não admite graus e restrito as pessoas.  Para contornar esta objeção o autor propõe uma linha divisória ao longo da escala que mede as capacidades psicológicas.que distinguem as pessoas de animais. O erro em matar seres acima deste limite ( pessoas)  deve ser explicado pela exigência de respeito e dignidade , portanto pela abordagem do valor intrínseco. Já para os seres que estão abaixo do limite ( animais)  a explicação e pela abordagem do interesse temporalizado. Ao uso destas duas visões dá se o nome de abordagem dos dois níveis.

2-      Mesmo entre as pessoas há diferenças de capacidades psicológicas, uns tem mais que outros. Se a dignidade de alguém é baseada em suas capacidades psicológicas e se elas podem ser diferentes entre as pessoas, pode se inferir que algumas pessoas tem dignidade maior que as outras. Seria mais errado matar pessoas com capacidades superiores do que com capacidades inferiores , o que vai contra a tese da igualdade do erro.  Para contrapor esta objeção o autor fala que em algum lugar ao longo da escala que mede as capacidades psicológicas haveria um ponto ( patamar) em que a dignidade individual deixaria de variar de acordo com as variações destas capacidades. Todos acima deste patamar teriam a mesma dignidade. Este ponto é chamado de limite da igualdade de dignidade.  Este limite coincide com um ponto em que os indivíduos tem dignidade suficiente para merecer respeito e é chamado de limite de respeito. Estes dois limites são referidos conjuntamente como “o limite”. Pode se estipular que uma pessoa seria um individuo com capacidades psicológicas situadas acima do limite. A abordagem em dois níveis mostra que o ato de matar pessoas é errado porque fere a exigência de respeito. E que todas as formas de matar seriam erradas, independente do tamanho dos danos que a vitima sofre.

McMahan questiona se esta teoria de abordagem em dois níveis é plausível ou se seria apenas um artifício para salvar a idéia igualitária. Ele afirma que a dignidade é uma propriedade de base geral, fundamentada com capacidades psicológicas variáveis, assim como a competencia baseada em capacidades cognitivas variáveis. O autor reconhece problemas em justificar a dignidade e a competencia como propriedade de base geral. Argumenta que não há um paralelo evidente entre as duas noções: competencia e dignidade. O significado moral da competencia é instrumental,  diferente do da dignidade. A competencia é necessária para obter um determinado objetivo : uma decisão racional, a dignidade não é boa ou útil para outro fim.  Conclui dizendo que a intuição de que todos os atos de matar pessoas são igualmente errados é muito forte e amplamente aceita e que para além de certo limite toda a dignidade seria igual , configurando uma propriedade de base geral.

Pertencer à espécie humana e moralidade do ato de matar


Hand-Out para parte do capitulo 3 de McMahan (A ética do matar), Curso de Bioética


Pertencer à espécie Humana
O antropocentrismo procura manter as crenças tradicionais a respeito do tratamento de seres humanos com sérias deficiências mentais e das práticas generalizadas que envolvem a utilização e a morte de animais.

O autor considera que o antropocentrismo combina elementos do que ele denominou igualitarismo radical e do elitismo consistente e que são imcompatíveis com a abordagem do interesse temporalizado.

Trata animais de uma maneira menos boa e seres humanos com graves deficiências mentais com mais solicitude em relação aos interesses temporalizados tanto de uns quanto de outros.

O antropocentrismo é uma postura que coincide com o senso comum e é possível investigar se é uma postura defensável ou não. Para ser defensável o antropocentrismo deve apontar diferenças moralmente significativas entre animais e seres humanos com capacidades e potenciais psicológicos comparáveis. E não simplesmente apontar tais diferenças, mas demonstrar que elas são suficientemente relevantes para justificar a enorme diferença de tratamento dispensado a ambos.

Essa é a tese do individualismo moral defendida pelo filósofo americano James Rachels que o define como:
“Individuals  are  to  be  treated  in  the  same  way  unless  there  is  a relevant  difference  between  them  that  justifies  a  difference  in treatment.”

As estratégias de defesa do antropocentrismo são baseadas na crença de que existe entre seres humanos e animais não-humanos uma diferença intrínseca. E quais poderiam ser?

1 - Existência da alma.
            Seres humanos são essencialmente almas ou, pelo menos, dotados de uma enquanto animais não tem almas.

            O autor acredita ter demonstrado no capítulo 1 que almas não existem.

            Entretanto, mesmo se almas existissem e apenas seres humanos fossem dotados de tal atributo, não se seguiria daí que humanos deveriam, por esse motivo, ostentar um estatuto moral privilegiado em relação aos demais animais. Pelo contrário. Se seres humanos são dotados de uma alma que lhes garanta uma vida imortal e os animais  não, parece lógico que matar um animal seja mais reprovável pois o privaria de qualquer bem futuro enquanto um ser humano ao  morrer apenas transitaria de um estado de vida para outro.

            A não ser que matar seres humanos fosse ofender a deus. McMahan pensa que o fato de deus perdoar apoie essa vertente pois seria incongruente pensar que deus perdoasse ofensas não dirigidas a ele. McMahan não questiona, mas aqui é forçoso perguntar porque deus se sentiria ofendido por qualquer mal causado àquela parte de sua criação que ele resolveu dotar de alma? Que tipo de valor seria adicionado a um ser vivo quando lhe fosse atribuído uma alma capaz de atrair cuidado tão excepcional de seu criador? Talvez deus devesse ter dotado todos os seres de almas ou ter criado apenas almas.

2 - Somos humanos, ponto.

            Essa estratégia se baseia na inviolabilidade e sacralidade da vida humana. O fato de um indivíduo pertencer à espécie humana torna sagrado e inviolável o valor de sua vida, mesmo que ele seja um embrião defeituoso cujo potencial seria transformar-se em um bebê anencéfalo. Valor sagrado de uma maneira que a vida de nenhum outro animal teria, fosse um feto ou um adulto.

            E essa ideia seria defensável? De onde emanaria o valor sagrado da vida de fetos anencéfalos? Não seria de seus atributos psicológicos, pois esses fetos não teriam nenhum. Não parece ser físico também, pois um embrião recém implantado é física e funcionalmente menos complexo que um inseto. Parece que a superioridade atribuída a um indivíduo da espécie humana, seja normal ou com sérias deficiências, apoia-se no fato de simplesmente ser um organismo daquela espécie.

            E essa parece ser uma condição suficiente e não necessária para que a vida de algum indivíduo possa ser considerada sagrada e inviolável. O guarda chuva da santidade e da inviolabilidade acomodaria assim um indivíduo não humano que fosse dotado de capacidades psicológicas comparáveis , por exemplo,  a uma criança humana de 10. Haveria, então, duas condições suficientes (pertencer à espécie humana e ter certas capacidades mentais ou psicológicas) e nenhuma delas seria necessária para sacralidade e inviolabilidade da vida. Um chimpanzé com o córtex cerebral modificado satisfaria uma dessas condições enquanto um bebê anencéfalo satisfaria a outra.  Uma criança de 10 anos satisfaria as duas. McMahan advoga que os fundamentos de inviolabilidade e sacralidade não podem ser aditivos, logo uma criança normal de 10 anos, embora satisfaça ambas as condições, não pode ter seu estatuto moral superior quando comparado a um chimpanzé modificado.

            McMahan se pergunta que razões, então, haveria para que o pertencimento a uma determinada espécie fosse suficiente para gerar um estatuto moral superior ao pertencimento a uma outra espécie qualquer?

            O filósofo parte do pressuposto que o conceito de espécie não passa de uma estratégia utilizada em biologia para classificar os seres vivos e isso, por si só, já comprometeria a intenção de atribuir significado moral ao fato de um indivíduo pertencer a certa espécie. Além disso, a crença do filósofo em que não seríamos essencialmente organismos exige que ele defenda que pertencer a uma espécie é uma propriedade atribuível apenas a nossos organismos e atribuída a nós mesmos apenas por extensão. Aqui ele diz que embora não sejamos exatamente membros de uma espécie (porque nossos organismos é que são), ainda podemos afirmar que somos membros da espécie Homo Sapiens. (O dualismo, às vezes, exige certos malabarismos teóricos).

            McMahan especula se haveria algumas características essenciais que unissem os membros de uma espécie. 

            Essas características podem ser fenotípicas? Contra essa possibilidade, o filósofo argumenta que existem complicadores sérios como a existência de espécies politípicas e espécies gêmeas. As primeiras possuem fenótipos muito diferentes embora possam acasalar e gerar prole fértil e a segunda cujos fenótipos são, muitas vezes, indistinguíveis embora não possam se acasalar e gerar prole fértil.

            Seriam, então, características genotípicas? Mas, será que a configuração de genes que compõe o genoma de um indivíduo poderia ter qualquer significado moral? Contra essa possibilidade, o filósofo recorre a uma experiência de pensamento que é a possiblidade da hibridização genética. Partindo de experiências reais na produção de animais transgênicos McMahan  supõe a possibilidade de criar um ser que seja em parte humano e em parte chimpanzé. E pergunta em que ponto do espectro gênico um indivíduo poderia ser considerado humano e, portanto, ser portador de uma vida sagrada e inviolável ou ser considerado um chimpanzé e ser portador de uma vida moralmente tão inferior. Essas experiências poderiam gerar um chimpanzé com um córtex cerebral humano ou poderiam gerar um ser humano com o córtex de chimpanzé, o que causaria sérias dificuldades em determinar qual seria dotado de uma vida sagrada. À estratégia que afirma que espécie se define pela possibilidade de acasalamento o autor responde com a existência de espécies em anel.

            Entretanto, McMahan advoga que qualquer diferença biológica é moralmente insignificante como, por exemplo, diferenças de sexo e raça. E a discriminação de um indivíduo tendo como alvo a espécie a que pertence pode ser denominada de especismo. E mesmo que as diferenças específicas estejam fortemente correlacionadas com diferenças que têm significado  moral, tais correlações não são invariantes. Em seres humanos com graves deficiências mentais essa correlação é fraca.

            Outra estratégia de justificar a diferença de tratamento dispensado a um ser humano e um animal não humano, é levar em conta não as capacidades individuais, mas as capacidades típicas dos seres pertencentes à espécie da qual faz parte determinado indivíduo. (Essa é claramente uma estratégia quase que universalmente aceita e contrasta veementemente com a perspectiva do “Individualismo Moral” defendida por Mc Mahan).

            Dois autores são citados como defensores dessa perspectiva: Finnis e Scanlon. O primeiro considera que devamos agir para com indivíduos com referência às características que são a norma da espécie. No caso de seres humanos a norma da espécie seria a sua natureza racional. Scanlon, por seu lado, afirma que uma parte da moral diz respeito aos deveres que temos em relação a outros seres e que tais seres para com quem temos tais deveres são aqueles “[...] em relação aos quais temos boas razões para desejar que nossas razões sejam justificáveis”. Esses seriam os seres que poderíamos tratar de forma certa ou errada. E para Scanlon, os seres em relação aos quais podemos agir de forma errada (ou certa) incluiria “[...] pelo menos , todos os seres que sejam capazes de adotar atitudes sensíveis ao juízo”.  Isso incluiria os seres humanos com graves deficiências mentais, já que temos que adotar atitudes para com eles que respeitem princípios que eles não poderiam (razoavelmente) recusar, mesmo que sejam incapazes de fazer tal avaliação. Em relação aos animais, entretanto, só caberia apresentar justificativas a possíveis gestores que, não por acaso, seriam humanos. Isso é estranho pois seres humanos com capacidades mentais comparáveis a alguns animais não necessitariam gestores pois eles pertencem a nossa própria espécie.

            A visão de Scanlon é um especismo um pouco mais fraco, embora não deixe de sê-lo e inscreve-se no âmbito daquela perspectiva que julga o estatuto moral de um indivíduo pelo estatuto da espécie e se tal indivíduo não é dotado daquelas habilidades especiais que caracterizam sua espécie ele deve ser considerado um desafortunado. Um indivíduo de outra espécie com habilidades comparáveis não seria, entretanto, considerado desafortunado se tais “deficiências” fosse a norma da espécie.

            Aqui também o que prevalece é a justificação de certo estatuto moral baseado no que somos essencialmente. E se o que somos essencialmente é determinado pelo tipo de coisa que somos, e o tipo de coisa que somos é determinado pela espécie a que pertencemos, logo somos essencialmente o que é a nossa espécie.

            McMahan acredita que já refutou essa possibilidade. Mas, considera que mesmo que isso fosse verdade, mesmo que nossa essência residisse no fato de que pertencemos à determinada espécie, não se segue daí que devamos ter um estatuto moral superior. Porque as condições necessárias para que sejamos considerados humanos não têm em si qualquer sentido moral. Para McMahan, que crê que não somos organismos, essa correlação entre espécie e estatuto moral é ainda mais indefensável.

            Em resumo, McMahan crê que o tratamento especial dispensado a seres pertencentes à espécie humana não se justifica nem biológica, nem metafísica e nem moralmente.

sábado, 6 de outubro de 2012

Ética II - 2012 - Graduação em Filosofia


Curso de Ética 2 – Graduação em Filosofia – UFU
Prof. Alcino Eduardo Bonella (UFU/CNPq)

Ementa: Fundamentos de ética.

Objetivos: Consolidar conteúdos de ética 1 (metaética). Introdução em ética prática.

Conteúdos:

I.                   Introdução: Natureza dos problemas, terreno filosófico, ética e ética prática.

II.                Epistemologia da ética.
2.1  Contra o Ceticismo I: Erro, Progresso e Tolerância.
2.2  Contra o Ceticismo II: Arbitrariedade, Desacordo e Relativismo.
2.3  Em Defesa do Objetivismo I: Objetividade moral.
2.4  Em Defesa do Objetivismo II: Conhecimento moral

III.             Ética Prática.
3.1  Ricos e Pobres. Libertação Humana e Direitos Humanos.
3.2  Igualdade Humana e Ação Afirmativa.
3.3  Igualdade para os animais
3.4  Tirar a vida: o que há de errado nisso.
3.5  Tirar a vida: os animais não humanos.
3.6  Embriões, fetos (aborto) e recém-nascidos humanos (infanticídio).
3.7  Eutanásia.
3.8  Aquecimento global Meio Ambiente.
3.9  Desobediência Civil, violência e terrorismo.

IV.             Conclusão: Por que ser moral?

Bibliografia:

SHAFER-LANDAU, Russ. Whatever Happened to Good and Evil. Oxford, OUP, 2004.
SINGER, Peter. Practical Ethics. Cambridge, CUP, 2011. (trad. Martins Fontes, 2006)
_______. (ed.) A Companion to Ethics. Oxford, Blackwell, 1993. (trad. Alianza 1995)

Avaliação: prova 1 (I e II); prova 2 (III)

Aula 8 - BIOÉTICA 2012 - A ética do matar



Hand-Out: McMAHAN, Jeff. “Killing”. In: The Ethics of Killing. Oxford, Oxford University Press, 2002, pp. 189-265.


1. O erro (wrongness) de matar e o mal (badness) da morte.


     1.1    Duas teorias.


A crença moral predominante (matar pessoas é normalmente errado) e a busca pelos seus fundamentos:

um caminho é comparar matar animais não-humanos com pessoas (humanas ou não-humanas).

Outras crenças comuns: matar um ser humano é pior do que matar um animal; um ser humano sofre maior prejuízo com a morte do que sofre um animal, matar um animal superior na escala de complexidade mental (um cão) é pior do que um inferior (um peixe).


Matar envolve infligir o mais sério dos danos à vítima e tal dano é a razão do erro de matar.


Se a idéia acima procede podemos dar sentido às crenças comuns citadas (todas).


Teoria Baseada no Dano Causado (Harm-based Account ou Abordagem Comparativa da Vida): o ato é errado por causa do dano à vítima e o ato é pior em função do grau de danos que ele causa; assim, matar uma pessoa é um erro grave e matar um animal menos grave.


Uma virtude desta abordagem é explicar nossas crenças comuns sobre humanos e animais e sobre animais entre si. Um problema é a suposição de que a identidade é o que importa, pressupondo uma abordagem comparativa da quantidade de vida perdida com a morte.


Uma opção mais sólida é abandonar a suposição de que o que conta mais é a identidade, ao invés da unidade de relações prudenciais (do interesse afetado do indivíduo como seus interesses temporalmente relativos): eles podem ser diferentes do que seria no interesse deste indivíduo (o melhor em conjunto para sua vida), mas por outro lado leva em conta a temporalização deste interesse e dos desejos interligados deste indivíduo.


Essa é a teoria dos interesses temporalmente relativos do erro de matar: o erro se refere aos efeitos sobre a vítima mas não é a identidade que conta, e sim, as relações de unidade prudencial entre as fases de vida, que podem variar. O erro não está somente no dano em geral  mas em afetar negativamente os interesses (temporalmente relativos) da vítima

Cf. 3.1. abaixo



      1.2    Matar animais.


Por que o interesse temporalmente relativo de um animal em viver é mais fraco do que o de uma pessoa e, mesmo, normalmente mais fraco do que o de um feto tardio e de um bebê humano? Há 6 pontos a considerar:


1º- ao morrer um animal perde substancialmente menos do que perde uma pessoa: primeiramente porque a qualidade dos bens é menos variada e complexa dada a capacidade cognitiva e emocional mais limitada de um animal;


Além disso, em lugar, os bens que se perdem são em quantidade menor: muitas espécies são limitadas pela sua biologia a uma extensão máxima que é mais curta do que a das pessoas humanas, mesmo em sua média;


Os bens para pessoas são mais valiosos, dado o desejo e vontade (e merecimento) ligados a eles, ao contrário dos animais, que os têm sempre não-antecipados e sem ligação com o futuro.


Dada a narrativa estrutural que demanda completude (finalização) e significação (passada), as pessoas autonomamente estabelecem propósitos para suas vidas, formam relações estruturadas com os outros, e criam expectativas e dependências que requerem preenchimento, algo que não ocorre com o animal porque nele este potencial para uma unidade narrativa complexa está totalmente ausente.


- nos animais falta a dimensão do passado como algo que torna significativo à luz da biografia os fatos prévios da vida como investimento de tempo e recursos para o futuro com esforço e sacrifícios às vezes dolorosos e tediosos; animais não se arrependem e tentam mudar de vida, ou pedir perdão e tentar compensar outras pessoas pelos atos errados;


- Pessoas têm uma dimensão inter-comparativa que falta aos animais;


- A unidade prudencial de relações dentro de uma biografia animal é muito mais fraca do que a de uma pessoa: há muito pouca unidade psicológica entre um animal num dado tempo t1 e animal no tempo t2.


Assim, matar uma pessoa é pior do que matar um animal. (Um feto também ganha do animal quando comparamos a quantidade de bem em jogo no futuro e o vínculo de unidade prudencial potencial  – p. 199).


Observação: Aparentemente isso endossa a visão tradicional “bem-estarista” (o que importa mais no caso do animal é evitar o sofrimento e propiciar bem estar, e não mantê-lo vivo), mas isso não é o caso, pois não passa no teste dos critérios citados em combinação: algumas vezes a perda do animal com sua morte é maior do que a perda imediata de bem estar ou o sofrimento futuro (não causado pelos humanos, obviamente: a diferença entre sofrimento esperado e sofrimento provocado pelo agente humano que deliberadamente mantém ou tira a vida do animal).



2. Animais e seres humanos gravemente deficientes mentais.


2.1 As opções: antropomorfismo, elitismo, igualitarismo, assimilação convergente.


A teoria da igualdade levanta dois problemas de igualdade a partir da comparação acima.


A versão da teoria do interesse temporalmente relativo explica bem porque é pior matar pessoas do que animais na diferença entre nossas capacidades psicológicas; porém, há seres humanos que também não possuem tais capacidades senão no mesmo grau que um animal ou abaixo dele.


O problema torna-se difícil no caso dos seres humanos gravemente prejudicados mentalmente, quando não houve ainda realização das capacidades complexas, ou nem nem há potencialidade para as capacidades cognitivas e emocionais típicas de uma pessoa. Neste caso, não é pior, prima facie (“other things equal”), matar um ser humano não-típico, do que matar um animal com capacidades psicológicas comparáveis. Mas isso é contra-intuitivo:  seria permitido, por exemplo, matar seres humanos em experimentação científica, o que é absurdo.


Há quatro modos de evitar ou diminuir as tensões surgidas: antropocentrismo (manter a visão comum de extensão a todos os humanos do mesmo estatuto moral, mas com fatores exteriores acrescentados para salvar a intuição de que animais contam menos, por exemplo, com invocação do pertencimento à mesma espécie); elitismo (mudar a visão comum, do lado dos humanos, e igualá-los aos animais, com menor estatuto moral); igualitarismo radical: mudar a visão comum, do lado dos animais (animals right) e igualá-los aos humanos, com o mesmo estatuto moral elevado; assimilacionismo convergente (mudar parcialmente a visão comum, mas dos dois lados, humanos e animais, ambos com estatuto moral semelhante, mas ainda diferente do estatuto das pessoas).


Elitismo aceita rebaixar o status dos humanos não-típicos prima facie, contornando as conseqüências práticas com os efeitos colaterais para outros humanos típicos, com critérios externos (arbitrários) como a filiação à espécie, ou com o padrão normal para a espécie como critério. O igualitarismo aceita elevar o status dos animais, questionando a visão comum. Porém, ele ainda necessitaria estabelecer racionalmente o campo de inclusão, o que torna instável essa extensão.  O mesmo vale para seres humanos não típicos.


2.2 Filiação à espécie humana. (ser um organismo individual com uma alma, ou, com uma genética humana)


O antropocentrismo combina elementos do elitismo e do igualitarismo.


Há duas estratégias: identificar diferenças intrínsecas ou extrínsecas (identificar a diferença em propriedades relacionais ou de perspectiva).


A primeira pode ser de dois tipos: a propriedade é metafísica (“alma”) ou é biológica (“genética”).


(1) A suposição metafísica da alma: “Todos os seres humanos têm alma, mas não os animais”. Porém: [i.] tal reivindicação não é empírica e racionalmente sustentável; [ii.] em qualquer versão robusta (como a cartesiana), é incompatível com o que nós sabemos sobre a dependência mental da organização e funcionamento do cérebro; [iii.] se adotamos uma noção totalmente separada da consciência ou da mente no sentido trivial, nossa noção se torna totalmente arbitrária para nos distinguir dos animais ou de qualquer ser que supostamente não possuiriam também uma alma; [iv.] mesmo se verdadeira, a tese não sustenta apenas visão normativa tradicional (animais inferiores), porque seria pior tirar a vida de um animal, já que ele só tem esta vida!


(2) 2.1. Suposição genômica: “todos os seres humanos são geneticamente membros da espécie humana, (mas não outros animais)”. A simples pertença à mesma espécie é a fonte do valor intrínseco de todo ser humano: o que conta não é a capacidade psicológica real ou potencial, mas seu status físico. Porém: [i.] a complexidade física e biológica de uma formiga é maior do que um embrião, um grupo de células simples; [ii.] uma célula humana é geneticamente humana, mas não tem valor intrínseco ou sagrado; [iii.] ter tal gene não nos compromete com a espécie, necessariamente, pois pode haver animais melhorados geneticamente a ponto de terem genes humanos em alto grau; [iv.] a definição de uma espécie é meramente biológica, não ética, e pode ainda não estar claro porque a espécie tem significância moral; [v.] pode ser plausivelmente sustentado que não somos idênticos a um organismo biológico, que parecemos ser, mas somos apenas dependemos de um organismo, para existirmos como mentes incorporadas, o que torna as propriedades biológicas predicadas indiretamente ou por extensão (o que importa é o que tais genes desenvolvem, as nossas capacidades emotivas e racionais), e têm então menos importância do que as propriedades psicológicas predicáveis diretamente. Mas animais possuem algum grau destas mesmas capacidades.


Digressão sobre filosofia da biologia: qual seria a importância do genótipo?  (98,4% de nossos genes estão num Chimpanzé): [vi.] animais transgênicos refutam que a importância está realmente nos genes; [vii.] se o critério não estiver nem no fenótipo nem no genótipo, mas no intercruzamento, ele será: ou obscuro cientificamente, pois há problemas com este método para estipular as espécies; ou será irrelevante moralmente (a capacidade de intercruzamento como critério de valor para os deficientes?). Assim, [viii.], pertencer à espécie é um fato puramente biológico, como pertencer a uma raça ou a um gênero sexual: algo arbitrário se usado para estabelecer o estatuto moral.


Variação de 2: 2.2. O valor do indivíduo da espécie deve ser medido pelo padrão esperado na espécie em situação normal. Os deficientes são indivíduos desafortunados, mas não os indivíduos de outras espécies, que mesmo em situação normal estariam abaixo da espécie humana. Porém, [i.] não é ser membro da espécie que realmente conta aqui, mas o que a espécie tem de característico (ser racional; ser sensível à moral; ser autônomo etc); [ii.] não fica claro porque aos membros da espécie que não tenham aquelas características não deve ser dado o mesmo status moral já que tem outras características e não aquelas e também são desafortunados por terem nascido nesta ou naquela espécie, assim como nós poderíamos ter nascidos nesta ou naquela “casta”; [iii.] aqui há o mesmo problema de arbitrariedade que vimos em [vi.] anteriormente: um superchimpanzé não será uma pessoa mesmo tendo as características de uma por ter os genes que realizam as capacidades mentais humanas, já que não pertencerão à espécie humana.


Conclusões: (a) que todos os humanos têm alma e os animais seria moralmente significativo, mas de fato não existe tal diferença (não existem almas, ou não existe apenas a alma humana); (b) que todos os humanos pertencem à espécie humana é um a diferença que existe, mas que é moralmente irrelevante por não gerar sustentação do tipo moral (não ser agencialmente neutra).



2.3 Co-filiação à espécie como uma propriedade relacional – uma relação especial (razão adicional para proteger deficientes mentais humanos, mas não outros animais).


A diferença pode ser sustentada como algo extrínseco: ser nascido de humanos típicos e ter relações com humanos típicos provê uma forte razão (relacional ou perspectivista) para a igualdade de status entre humanos mas não para com os animais. 


Há duas versões desta tese: a relacional e a perspectivacional. Elas são diferentes em escopo: a segunda visão permite qualquer opção desde que pessoal ou particular.


A primeira incorpora que o valor da parcialidade (proteção; responsabilidade) mas se mede também pelo desvalor que ela causa na relação com outros que estão fora do escopo (por ex., nos membros de outras nações, quando o grupo é nacional e o valor da parcialidade para com os nacionais é o que está em questão), ou seja, os usos da parcialidade podem estar ligados a abusos contra "os de fora" (outros membros); e mesmo assim é estranho uma identidade na espécie, pois não há sentido sem outras espécies similares.


Uma forma de relação especial é a parental: mas não se trata de uma relação especial por causa da espécie, mas por causa dos laços familiares (mas isso se dá entre humanos e animais de estimação!).


Assim, a visão tradicional tem de ser mudada: nós subestimamos o valor dos animais e superestimamos dos humanos similares a eles.


2.4 Assimilação Convergente (nova visão, mais coerente)


A melhor maneira de manter nossas intuições e evitar ou diminuir as tensão geradas pela comparação entre humanos deficientes e animais é assimilar um ao outro, o que, contra o elitismo e o antropocentrismo, faz subir o estatuto dos animais (e na prática, faz subir enormemente o valor dos animais), e contra o igualitarismo radical e o antropocentrismo, mantém os animais ainda abaixo das pessoas, mas também os humanos mentalmente deficientes, que ficarão ligeiramente abaixo das pessoas (e na prática, continuarão com o mesmo valor, exceto em situações raras).

Esta interpretação sugere que não se deve causar dor seja em quem for, animal ou humano; que normalmente, não se deve tirar a vida seja de animais seja de humanos gravemente retardados ou sem cérebro, exceto se houver um motivo ou motivos relevantes, com alguma proteção adicional aos humanos mantida, em algum grau, por causa dos pais, parentes, e da autoproteção social necessária a todos (e porque há a alternativa do uso de animais de mesma capacidade mental, que estão abaixo dos humanos deficientes). Esses pontos dão razões indiretas  para tratar igualitariamente a humanos com deficiências mentais (o que rebaixa, ainda que levemente, o status dos humanos gravemente retardados, e altera para cima o status dos animais);

[a tese é de uma moralidade de dois âmbitos ou dois critérios para garantir prerrrogativas:


Moralidade do Respeito: normalmente não prejudicar e não tirar  a vida de pessoas, independentemente do contexto e dos motivos utilitários que poderiam sugerir que isso fosse bom, ou maioria: o  respeito estrito e a igualdade devem ser a norma apropriada para pessoas - razões deontológicas morais e jurídicas. Isso não vale só para humanos, mas também para animais com capacidades de ser uma pessoa (primatas, golfinhos e baleias), e não vale para humanos que não as possuem (anencéfalos; deficiências mentais de mesmo nível; embriões humanos);


Moralidade Utilitarista: Os seres que não são pessoais mas podem sofrer e podem ser beneficiar de uma vida mais longa do que mais curta, normalmente, não devem ser prejudicados – sofrer danos – e não devem ser intencionalmente mortos sem um motivo seriamente relevante, mas isso dependerá do contexto e das razões utilitárias, que podem permitir que se mate um ser meramente consciente se isso for bom para todos, ou ao menos para a maioria, não havendo alternativas – razões consequencialistas

O âmbito dois não vale para animais com capacidades psicológicas similares a pessoas, que são pessoas, como outros primatas, baleias e golfinhos – talvez polvos – e vale, potencialmente, para fetos e recém nascidos humanos, além de seres humanos com graves deficiências mentais.]





3. Igualdade e Respeito

3.1. Teoria do Interesse temporalmente relativo.

A teoria baseada no dano ou na comparação vital tem a implicação implausível de que matar um feto é prima facie pior (mais seriamente objetável) do que matar uma criança ou um jovem, porque nesta abordagem a identidade (física, numérica) é a principal base da preocupação consigo (egoistic concern) quanto ao futuro, avaliando o dano da morte pela comparação entre o que um ser teria se não fosse morto em termos de bens perdidos, dano ou falta dele que torna pior ou melhor a vida deste ser como um todo (globalmente; em toda sua existência).

Se, todavia, a identidade não é base da preocupação consigo, se alguém “vai melhor ou pior como um todo” (no futuro) pode não ser o que realmente interessa para o ser a quem nos referimos, e, havendo conflito entre o que o que seria melhor e o que seria do interesse deste ser, a moralidade deveria nos dirigir para a segunda opção (os interesses). Mantêm-se a teoria do dano mas interpretando-a como preferências e não como oportunidades, e com uma taxa de desconto (abordagem dos interesses temporalmente relativos).

Uma implicação aparentemente implausível disto é que matar humanos inocentes gravemente retardados não seria pior do que matar certos animais, o que é uma poderosa objeção. Mas a intuição comum é que está, em tese, errada, além de que a prática realmente existente de matar animais está errada, e a nova intuição então não divergirá totalmente do que já temos de proteção, além de proteção adicional aos humanos por causa das relação entre humanos e da alternativa do uso de animais quando for correto matar um ser humano retardado.

Mas há outro problema para a igualdade que parece incontornável dentro do modelo da teoria do interesse temporalmente relativo: se o tipo e a intensidade do interesse do paciente fazem variar o valor ou desvalor de sua vida e de sua morte, então, como há variações entre o tipo e a intensidade do interesse mesmo entre humanos normais quanto à quantidade de bem a ser desfrutado em condições subjetivas e objetivas variáveis, então, em tese, também há variação no valor da vida de humanos normais! Isso é mais contraintuitivo ainda.

Há vários fatores que fazem variar a intensidade do interesse na continuidade da vida: grau de suas capacidades emotivo-cognitivas; o temperamento e disposições individuais subjetivas; as circunstâncias do indivíduo; a expectativa de vida dada pela saúde ou pela idade; etc. (cf. os 6 tipos) 

Consequentemente, haverá variação na intensidade do interesse: ele será mais forte em certos seres e mais fraco em outros; mas então, por coerência, matar seres com interesse mais intenso é pior do que matar os seres com interesse mais fraco.

Esta é uma implicação (aparentemente) implausível, pois contraria nossas intuições morais mais fortes de igualdade humana (já incorporadas juridicamente): aceitamos fortemente que matar em qualquer destes casos é igualmente errado e proibido fortemente.

A tese da moralidade legalmente incorporada é a tese da igual incorreção em se matar estes seres humanos, com estas variações na sua capacidade. [Porém, na verdade, isto não é totalmente exato como descrição das nossas intuições completas: na fila de transplante damos menos prioridade para casos perdidos ao invés de casos com alguma chance de sobreviver - exemplo em aula].

No caso padrão e no exemplo de um matador beneficente que visasse salvar mais vidas com a morte de algumas outras, matar o mais velho ao invés do mais novo é um imperativo da visão do interesse temporalmente relativo, um que está em desacordo com nossas intuições mais fortes. (assim como matar o mais depressivo).

Duas soluções: (1) rejeitar, de novo, as intuições e encontrar uma visão mais coerente, ou 1.1 criticando o estatuto epistemológico delas (ou - 1.2: criticando o modo de apresentação do problema,) tentando mostrar que não há incompatibilidade com a intuição principal de que matar pessoas é algo terrivelmente errado, mesmo havendo variações entre o valor da vida de pessoas; (2) rejeitar a teoria e refiná-la ou suplementá-la com uma teoria deontológica do respeito pelas pessoas.


3.2 O requisito do Respeito pelas Pessoas.                       

(A) Uma maneira de descrever tal requisito é ainda com a teoria do interesse temporalmente relativo: se um ser é uma pessoa, então não haveria mais variação a ser considerada na força de seu interesse em continuar vivendo, depois de certo limiar, todas as pessoas teriam o mesmo interesse.

Mas isso confunde dois conceitos de valor da vida, o valor determinado pelos conteúdos de experiência (uma vida valiosa de se viver) e o valor ou dignidade do indivíduo, que é o sujeito daquela vida (e ter a mesma dignidade no segundo sentido não implica em se ter a mesma vida valiosa no primeiro sentido).

A variação no interesse ocorre por causa do primeiro sentido: a ruindade de morrer tem a ver com o valor retirado da vida que varia de pessoa para pessoa também. Assim, ou a teoria do interesse não é toda a estória acerca da moralidade de tirar a vida, ou nossa intuição de que é igualmente errado matar qualquer pessoa, independentemente do valor desta vida, está errada.

(B) Outra possibilidade: a ruindade da morte varia e tem a ver com graus de intensidade do prejuízo e do interesse, mas o erro (wrongness) de se tirar a vida é uma função não disto, mas do valor da pessoa, da dignidade da vítima: tirar a vida de uma pessoa (insubstituível; cf. Singer e o receptáculo de valores) contra sua vontade é o maior dos erros (é irreversível) e é um erro contra o respeito que pessoas merecem (é incompensável).

Observação: o respeito é devido à pessoa e não às suas capacidades (às bases do respeito): tal equívoco é cometido pelos defensores da sacralidade da vida – ver Juiz Scalia e o seu argumento de que o valor da vida está acima da vontade individual do doente que quer morrer, ou seja, matar destruiria um ser de valor incalculável e então reduziria o total de valor intrínseco no mundo. Nesta visão o sujeito é um receptáculo (um container) de valor inerente. Mas, como o valor da vida está ligado ao ser que experimenta tal valor, o valor inerente de uma pessoa está ligado ao sujeito que possui tal propriedade, e não à propriedade em si mesma, separada do sujeito.

A segunda opção (o ruim varia com o valor da vítima) é uma opção plausível (como a teoria do dano e do interesse também o são) – compatível e explanatória das intuições fortes. Mas ela é compatível com a possibilidade de variação do valor intrínseco, se combinada contingentemente com a teoria do interesse - mais capacidades, mais dano - e de variação numérica – matar um número maior de pessoas é pior do que um número menor.

[Há ainda duas objeções: i. e ii. 

(i) Ele torna o erro de matar totalmente dependente do status da vítima, e abaixo de certo limiar, não haveria valor inerente a ser considerado, enquanto acima, haveria valor total; mas isso contraria a intuição de que há graus variáveis de danos abaixo do limiar. 

(ii) Se a pessoalidade é uma função das capacidades racionais e autônomas então ainda há como haver variações entre pessoas pois estas capacidades são variáveis, e uma conseqüência disto seria aceitar que o valor inerente varia entre pessoas mesmo assim (matar pessoas mais autônomas seria pior do que matar uma menos.

Como respostas a isso pode-se alegar: 

(1º) a pessoalidade estabelece um corte acima do qual todos cessam de ter variações na capacidade psicológica (todos são pessoas no mesmo grau – isso seria “ser uma pessoa”),  mas isso parece uma estipulação meramente ad hoc; 

(2º) as variações não aumentam ou diminuem o valor inerente, pois este seria como que uma propriedade de âmbito, mas isso não é incompatível com a tese da variação.]

Podemos ter dois caminhos para chegar ao conteúdo da exigência de respeito, um dedutivo (conceitual) e um indutivo (histórico) para responder a isso. O melhor é o indutivo, pois explora mais a fundo nossas intuições.


3.3 As bases da Dignidade das Pessoas.

Nosso ponto principal é então determinar se um ser está acima ou abaixo da linha que separa a moral do respeito inerente da moral do bem-estar e dos interesses: a primeira torna mais difícil justificar tirar a vida, a segunda mais fácil.

(R1) sobre a base da dignidade, alguns defendem de que todos somos iguais e temos a mesma dignidade “aos olhos de Deus”: cada indivíduo humano carrega tal natureza essencial. (W. James). O problema é como entender exatamente essa essência que todos partilham).

Outras respostas são as kantianas.

(R2): Kant argumentou que ser racional e autônomo é a base de nossa dignidade. Tal natureza porém é inteligível e não sensível, por isso não varia com capacidades contingentes. Assim, Kant transformou tais propriedades em “transcendentais”. Mas quais seres sensíveis possuem tais naturezas transcendentais?  
Exatamente os seres humanos e só eles, para Kant [ver p. 252: conclusão 1].

(R3) Rawls sugeriu que a potencialidade para uma capacidade moral (a personalidade moral: capacidade de uma concepção de bem e de justiça) explica nossa dignidade e o requerimento do respeito: só seres capazes de reciprocar podem ter uma moral de respeito inerente, mas não outros. Mas e os seres humanos que caem fora do escopo? Ainda seriam, para Rawls, potenciais reciprocadores, se são crianças ou doentes (reversíveis), e seria meramente arbitrário excluí-los dada a potencialidade, além de que isso é congruente com nossas intuições. Isso, porém, não é um argumento: porque exatamente temos de ver a potencialidade mais como a cor da pele (que é arbitrária de ser usada moralmente) e não como a falta da personalidade dos animais? E qual a razão para aceitar a intuição sobre crianças além de que já aceitamos? E como integrar fetos e doentes mentais irreversíveis? [ver. p. 254: conclusão 2].

(R4): Margalit manteve a distinção kantiana “sensível/inteligível” como distinção entre determinação causal e liberdade prática existencial (capacidade de descontinuidade entre passado e futuro). Novamente isso falha para os casos marginais.Isso coloca o risco de, se o determinismo for verdadeiro – e parece que ele é – então não temos razão para o respeito baseado na dignidade das pessoas; todavia, isso não parece afetar nossa distinção dos animais, e nossa ideia do valor das pessoas [cf. p. 256: conclusão 3; cf. 2.2: alma; espécie]

(R5) Quinn defendeu que a propriedade das pessoas que as tornam dignas de respeito igual e inerente é o exercício real da autonomia: a habilidade (dadas as capacidades psicológicas de pessoas maduras) de formar um quadro da própria vida e decidir por si mesmo. Porém, tal capacidade não é questão de tudo ou nada, e pode haver variação na intensidade de autonomia dos seres. Além disso, outros atos também são opostos à autonomia das pessoas (suicídio contra boas razão) e não são criticados mas defendidos: parece então que a autonomia não é o único requisito para a moralidade de matar, mas implica também em requisitos de bem-estar e interesses. [cf. p. 258: conclusão 4] Outro problema é que tal perspectiva não inclui nem explica outras intuições fortes, como a proibição de trocas entre a vontade autônoma de vítima (que proíbe) e a vontade autônoma dos beneficiários da morte dela (que permitiria o ato de matar - e se são maioria, venceriam). A resposta de Quinn é que cada pessoa tem interesse interno sobre si; o interesse sobre outros será sempre limitado pela autoridade individual sobre si que eles também possuem. Isso é questionável em muitos casos e perguntaríamos por que não também sobre a moralidade de matar.

(R6) McMahan sugere que a moralidade em geral e a moralidade de tirar a vida em especial se divide em ao menos duas regiões: uma concentrada nos interesses e no bem estar; outra no respeito inerente e igual. A discussão sobre as bases da dignidade/ respeito sugerem ainda um certo agnosticismo (não sabemos em que acreditar), combinado com: tal base estará ligada com a pessoalidade entendida como a posse das capacidades superiores dos mamíferos que nos distinguem dos outros animais e de outros seres humanos também; o respeito é antes de tudo, ou ao menos inclui fortemente,, o respeito pela determinação autônoma da vontade pessoal; isso deixa as questões principais mais difíceis sem boas respostas, mas muito dos problemas práticos podem ser esclarecidos e iluminados com estes recursos e com a exploração direta dos problemas particulares ligados aos casos marginais. Há uma arco de indeterminação nestes casos. O status das crianças ajuda neste ponto? Pode ser que sim. Elas não tem autonomia plena e ao mesmo tempo têm suficiente autonomia: estão em transição entre um status semi-potencial (não é só potencial) e atual (não é plena autonomia), como estariam os primatas como Gorilas; seu status não é governado totalmente pelo valor intrínseco mas nem pelos interesse temporalmente relativos. [cf. p. 263 e 265: conclusão 5]

* * * * * * * * * * *

Questões para aprofundamento:

1 - Diferencie as duas teorias sobre o valor da vida e sobre o erro de matar. (1.1. e 3.1. acima)
2 - Por que o interesse do animal é mais fraco do que o de uma pessoa no que diz respeito à continuidade da vida?
3 - Qual o problema 1 da abordagem do I.T.R. para a igualdade humana? Resuma as opções para resolvê-lo.
4 - Por que a filiação à espécie humana não seria um bom critério de distinção dos humanos diante dos animais com mesma capacidade mental?
5 - Como a interpretação da Assimilação Convergente resolve o problema? (Mas qual era mesmo o problema?)
6 - Qual é o problema 2 da abordagem do ITR para a igualdade humana?
7 - Explique o requerimento do Respeito pelas pessoas, porque foi introduzido, e as duas interpretações disto.
8 - Quais as duas interpretações padrão da dignidade da pessoa humana como fim-em-si?
9 - Explique a teoria de McMahan dos dois âmbitos de "direitos" ou status moral.

Ética no enfrentamento da CoVID-19

Questões éticas difíceis passaram a nos atingir mais frontalmente com  a pandemia da COVID-19. O  NUBET – Núcleo de Bioética e Ética Pública...